Sunday, July 20, 2008

Princípios das putas

Penso que é altura de voltarmos a abordar temas que realmente importam: putas que não dão beijos na boca. A questão da puta com este nível de princípio é de uma profundidade que merece reflexão.
Parece-me evidente concluir, desde já, que não se trata de uma questão de privacidade ou intimidade. O aluguer de intimidade é, afinal, o negócio da puta. É mais lato, é matéria da sociologia das profissões.

Sinceramente, sou a favor. Se a vida me tem levado a ser puta, julgo que também não beijaria na boca. Esta, arrisco, é a fronteira entre as que são putas e aquelas que podem chamar-se prostitutas. Toda uma categoria profissional em causa. É mais puta aquela que beija muitos na boca e nada mais, ou a outra cuja única fronteira corporal que impõe ao desejo alheio é a própria boca, e apenas se invadida por outra boca?
Acho que a primeira. A segunda é só mais prostituta.

A questão foi, e oportunamente, quase há 20 anos, trazida a público no filme Pretty Woman, com Julia Roberts e Richard Gere. Com a evolução do mercado da satisfação e variação sexual, a prostituta colocar-se-á, creio, gradualmente no seu patamar superior ao da simples puta. É a tendência a afirmar-se.

De resto, a demarcação de espaço que é feita pelo simples facto de não haver beijo na boca é perfeitamente compreensível. Eu, que nem puta sou, vou ao barbeiro cortar o cabelo, sim, mas jamais deixarei que me façam a barba, é algo que me incomoda, ora por ter medo que me cortem o pescoço, ora por sentir um certo incómodo com a intimidade quase sexual do gesto; é, no fundo, uma carícia de navalha.

E mais: eu, que, repito, nem puta sou, escrevo tantas vezes e tão poucas vezes sobre mim.

Sunday, July 6, 2008

Voltar às coisas que se foram embora

Volto a escrever aqui passadas muitas semanas, tantas que por momentos admiti que este aqui já nem existisse. Mas como ainda cá está, volto a escrever aqui.
Voltar depois de semanas fora é como perder lugar no espaço. Tudo o que era meu pareceu-me ligeiramente fora de sítio nos primeiros dias após o regresso, lá, sim, mas fora do sítio, como se mal arrumado na cómoda ou como um par de sapatos no meio da sala. Demora meia dúzia de dias até tudo estar outra vez onde estava quando saímos.
Há, porém, uma mudança permanente. Um cão de 14 anos, comigo desde os 14 aos 28, que morreu de velho enquanto estive fora, na casa dos meus pais. Dos 14 aos 28.
Já tinha dado sinais de crise antes da minha partida, tantos que a minha mãe, à despedida, se admirou pelo facto de eu não me lhe ter feito uma última festa de adeus. «As despedidas separam as coisas por definição», pensei eu, não me despedi.
Deixou de andar, começou de um dia para o outro a respirar com sofrimento e contam-me agora que a veterinária o considerou um herói, que viveu mais anos do que o normal, que era o animal mais velho da clínica e que todas as médicas o admiravam pela resistência.
Eu a pensar nos espaços que mudam e a ser traído pelo tempo. Já devia saber que são exactamente a mesma coisa.