Saturday, December 15, 2007

Primeira carta:

Quisesse eu apagar-te. Que não me aparecesses, só. Escrevo-te para to perguntar: que posso fazer para que me desocupes?

Segunda:

Não respondes. Fico sem razão para te apagar. No fundo, aquilo que procuro não é esconder-me de um diálogo contigo, antes a satisfação decorrente de impedir que me fales. Se não me respondes estragas tudo.
Terceira:

Bom era que pudesse falar-te sempre, como agora, mas que jamais pudesses responder, como fazes; que sofresses com essa limitação, que a tua língua nada mais articulasse que sons para mim inaudíveis, que fosses um apito de cão. Que a vida fosse um jogo de squash, que eu jogasse e tu fosses parede.

Quarta:

E ganho a quem?

Resposta:
Sou a parede de onde não passas.

Proposta para Lynch

Ela fumou um sapo cor de ananás e começou a cheiras coisas com os olhos. Depois veio um boneco de chocolate de avelãs cantar melodias da Tasmânia e tocar reco-reco com uma unha encravada. Ele ia ao circo, no entanto um post-it cheio de anotações pregou-lhe uma rasteira com as orelhas e gritou para o céu que os elefantes tinham muito mais piada se voassem como voam papéis ao vento.
Até que, quando ninguém esperava, aparece uma senhora de uma cor qualquer disposta a fazer coisas que a ninguém lembram, e promete mundos e fundos para que uma carteira portuguesa onde até cabia um bilhete de identidade inteiro lhe dissesse para que lado é que ficavam as finanças de Álcacer do Sal.
Em chegando lá, havia uma fila interminável de tartarugas cor de burro quando foge que se queixavam do tempo que demorava uma ave rara a cair do céu, como se o próprio dEUS tocasse naquela banda belga que coiso e tal.
Até que veio um artista de circo chamado Artur, cuja grande habilidade era cuspir para o ar e apanhar o cuspo ainda quando estava a subir, e perguntou à senhora de uma cor qualquer: «Tu no Inverno vais à piscina?» Ao que ele respondeu: «Pá, deixa-me, mas é.»
Nisto, o sapo cor de ananás que tinha sido fumado apareceu numa nuvem de aguarelas em contraluz e começou a declamar os Lusíadas em italiano enquanto pedia uma piza de amoras que tinham entrado ilegais no país por terem subordinado uma andorinha dos andes que por acaso ia a passar.
Agora, David Lynch, faça lá um filme disto que eu vou ver de certeza.

Tuesday, December 11, 2007

Rivalidades da Trafaria

Quem jogasse no Trafaria não podia namorar com miúdas da Costa da Caparica e vice-versa, sob pena de aparecer a boiar na Cova do Vapor. A vida era assim.

Hoje, aquilo que está a minar o futebol português não é a economia ou o descrédito, antes a languidez de rivalidades.

Num dia destes, estava numa discoteca, nos finalmentes do aniversário de um amigo. Às quatro horas, quando a música acabou, cantou-se a do Benfica do Piçarra, aquela do Sporting da Maria José Valério, o hino do Marítimo, tentou-se até o brilhante tema do Moreirense mas ninguém se lembrava da melodia e acabou-se com o do Belenenses: hoje como antigamente, nada temos que temer, Belenenses para a frente e tal.

Havia ali uma saúde de espírito, de gente de clubes diferentes que cantava coisas dos outros. As músicas, afinal, são de ninguém.

Até que quatro homens azuis, de cartões do Belenenses, espantados com a manifestação, partiram do princípio que todos os que estavam no grupo eram azuis como eles. Não eram. Um deles era, vá.

Quem não era, de tanto brilho nos olhos dos homens azuis, foi incapaz de se desmanchar em sinceridades e fingiu-se tão azul quanto o próprio céu. Mal não faria.

As rivalidades, onde estão?

Mesmo no campo: o Porto está tão bem que não as permite. O Sporting tão mal que também não. O Benfica está no meio, sem saber com quem deveria rivalizar e nisso rivaliza consigo. O Belenenses, como tantos outros, pelo que se viu, anda à procura de gente para poder rivalizar com alguém. Ao menos isso.

A minha mulher é do mesmo clube que eu, claro.
Era o que faltava, ainda aparecia a boiar na Cova do Vapor.

Friday, December 7, 2007

A cidade dos templos



A sala no Metropolitan Museum of New York chama-se Sala do Templo de Dendur por uma razão: porque nada mais tem. São oitocentos metros quadrados com uma entrada, uma lateral de vidro para o Central Park e, ao meio, o templo, oferta do Egipto.

Passa uma senhora americana, com duas amigas, que tem dúvidas.

- Desculpe, pode-me dizer onde é o templo?

O vigilante, coitado, abre a mão quase sem a tirar do bolso e nada diz: é aqui, o templo é isto, como é possível que você não perceba que o templo é esta construção de pedra à sua frente, numa sala onde nada há além disto!

À frente dos olhos, claro, o museu erguia-se inevitável, a colocar ainda mais sombra sobre tão escusada pergunta.

E ela: ah, pois é.

Mas Nova Iorque tem a faculdade fantástica de nada ter a ver com as pessoas. A ideia de que se entra num novo país sempre que se muda de loja, restaurante ou mercearia Coreia, China, Japão, México, Portugal, Irlanda, Espanha, impede que a cidade tenha alguma coisa a ver com pessoas ainda que lá estejam oito milhões.
A mistura é tanta que não há identidade possível.
São as ruas sujas e as torres de Babel que tocam no céu, as luzes na cara, é uma cidade de brincar para gente grande. São trinta quarteirões de contos de fadas e 30 mil de histórias reais. Mas não são as pessoas.

São os edifícios que são gente. O Chrysler Building por exemplo: não se pode visitar além do átrio, muito menos subir ao topo; não tem exposições, não é o mais alto, não é o mais bonito. Não é nada além daquilo que é: o Chrysler Building. Haverá melhor definição de personalidade?

A gente, ali, conta realmente pouco, vive na confusão de templos.
Por isso pergunta a senhora, à frente de um deles, onde é que um deles fica. E o que parecia estúpido é apenas humano.

Tuesday, November 20, 2007

Lugares que são aqui

Deitado no banco da paragem, os autocarros passam, com cargas e descargas. Até que finalmente entrou num, comprou um bilhete para um sítio que não sabia qual, não espreitou ou perguntou. A vida era aquilo, depois de tudo o que lhe acontecera as únicas regras possíveis de cumprir eram o acaso e o esquecimento. Ele não queria saber de lugares para onde ir. Por ele, esperaria para sempre um comboio sentado num carril.

Ela entrou a correr para a porta, por segundos perderia exactamente aquele autocarro e isso seria do mais raro que podia haver. Penteada e pintada, era um prato completo de beleza, com aperitivos, entradas, refeição, sobremesa, café e digestivos. O brilho das roupas, a determinação nos olhos ao dizer coisas tão simples como bom dia. A felicidade, a noção de ocupar o espaço e o tempo queridos. Jamais aceitaria perder o norte, tinha uma bússola no coração.

À noite, ao voltar para casa, ela chegou à paragem dois minutos antes do autocarro. Perfeito. Ele estava sentado por ali, como se aquele banco não fosse mais que outro qualquer e tivesse vista para qualquer lugar que se imaginasse. Ela estranhou e perguntou-lhe para onde ele ia:
- Vinha para aqui.
Ele fez o mesmo: para onde ia ela?
- Esqueci-me.

Wednesday, October 31, 2007

Michael Stipe contra Nancy Sinatra

If you could see yourself now, baby
It's not my fault
You used to be so in control
You're going to roll right over this one
Just roll me over, let me go
You're laying blame
Take this as no, no, no

I was five and he was six
We rode on horses made of sticks
He wore black and I wore white
He would always win the fight

You bang, bang, bang, bang and bang,
blame, blame, blame
You bang, bang, bang, bang and bang,
It's not my thing so let it go

Bang bang, he shot me down
Bang bang, I hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, my baby shot me down.

Syd Barret contra José Cid, gente que fuma coisas

An effervescing elephant
With tiny eyes, and great big trunk
Once whispered to the tiny ears
The ears of one inferior
That by next june hed die, oh yeah!

Fugiu de Alcácer Quibir
El Rei D. Sebastião
Perdeu-se num labirinto
Com seu cavalo real
As bruxas e adivinhos
Nas altas serras beirãs
Juravam que nas manhãs
De cerrado de nevoeiro
Vinha D. Sebastião

Because the tiger would roam
And the little one said oh my goodness
I must stay at home
And everytime I hear a growl
Ill know the tigers on the prowl
And Ill be really safe you know
The elephant he told me so
And everyone was nervvy, oh yeah!

Pastoras e trovadores
Das regiões litorais
Afirmaram terem visto
Perdido entre os pinhais
El Rei D. Sebastião
Ciganos vindos de longe
Falcatos desconhecidos
Tentando iludir o povo
Afirmaram serem eles
El Rei D. Sebastião
E que voltava de novo

And the message was spread
To zebra, mongoose, and the dirty hippopotamus
Who wollowed in the mud and chewed
His spicy hippoplancton food
And tended to ignore the word
Prefering to survey a herd
Of stupid water bison, oh yeah!
And the jungle took fright
And ran around for all the day and the night
But all in vain because you see
The tiger came and said to me
You know I wouldnt hurt not one of you
I much prefer something to chew
Youre all too scant, oh yeah!
He ate the elephant...

Tuesday, October 30, 2007

Regar a relvinha

Não sendo mulher, sou um simpatizante da masturbação feminina. Se fosse, decerto seria ainda mais.
Congratulo-me com o facto de hoje o tema ser até assunto televisivo, com senhoras de várias gerações a sobreporem-se pelos planos das câmaras, explicando os porquês de se tocarem.

- Os maridos não coiso e tal como deve ser.
- A mulher sabe melhor os sítios para coiso e tal.
- Eu cá faço de conta que o meu dedo é o George Clooney.

Eu, já que mo perguntam, também faço de conta que o meu dedo é o George Clooney quando bebo um café na minha Nespresso e me sinto um gajo do caraças.

Agora, o que me incomoda é que elas, as meninas, que hoje falam de boca aberta sobre pernas abertas, venham com tantos anos de atraso que lhes faltam vocábulos para o que querem dizer, alimentam conversas sem palavras. Não há, simplesmente, expressões que lhes engrandeçam o acto. A única que usam é masturbação, que me soa como algo que se pode fazer numa trituradora.

«Ó Joana, vou grelhar uns bifes para o almoço, masturba aí uns legumes na um-dois-três, por favor».

Nós, os meninos, por exemplo, poderemos ficar semanas a acumular expressões para a masturbação. Vou lembrar algumas, as mais elegantes: punheta, pívia, canhola, sarapitola, afiar o malho, descascar o pessegueiro, afagar o ganso. Só assim, sem pensar muito no assunto, encontro mais do que sinónimos da palavra paz.

Elas, coitadas, precisam de achega no assunto, ao contrário do que pensam. Aqui lhes recomendo cinco expressões para os próximos programas televisivos, sobretudo porque muito provavelmente vou querer vê-los: duplo clique no rato, tocar à campainha, dedilhar a guitarra, regar a relvinha e, a minha preferida, pentear o peluche.

Monday, October 29, 2007

Como todos os traumas, o dele tinha uma génese qualquer. Dizia-se que em miúdo sofrera um acidente de viação, que seguia no banco de trás e a mãe conduzia, guinando o volante ao ritmo do ressonar do pai, dos barulhos monstruosos que lhe escalavam a garganta. Ele colava o nariz à janela, embaciava o vidro, desenhava mundos novos com os dedos, simultaneamente lápis e borrachas.

Mas numa curva o carro não curvou. Ninguém morreu, excepto o carro, que ali ficou para sempre abraçado ao muro de um quintal.

Hoje, ele fala de tudo, um super-herói da discussão: filosofia pré-socrática, as valências do éter, futebol e cantos de mangas arregaçadas, a importância epistemológica do bacalhau com todos, a profundidade do petróleo, o valor do dólar face ao dram, a existência e a intermitência, interpretação de sonhos, traduções de línguas mortas para as linguagens do olhar e do gesto. Mas não de carros.

Um dia disseram-lhe:

- Comprei este veículo, porque dentro do segmento dá-me garantias. Não me dará problemas ao nível do diferencial e do semi-eixo, porque ao nível da transmissão é do melhor que aí anda. E sabes que mais: a junta da cabeça é prova de...

Ele morreu.

Grandes heróis tinham grandes inimigos. Batman enfrentava Joe Chill, Prof. Hugo Strange, The Joker, Catwoman, Clayface, Scarecrow, Penguin, Two-Face, The Riddler, Mad Hatter, Deadshot, Mr. Freeze, Poison Ivy, Man-Bat, Talia al Ghul, Ventriloquist, Scarface…

Ele morreu só assim, de tédio, sem trunfos, batido por um ás do volante.


Ela traficava brindes de jornais na livraria da rua.

- Xiu, não dê estrilho, venha aqui ao canto.

E lá ia eu, perguntar pelo DVD do James Bond que saiu com o Público. Passava por peluches grandes e um aparador com revistas e meia dúzia de brinquedos para a praia que ninguém levou.

- Tenho isso aqui para clientes especiais, ouvi dizer que está esgotado em toda a parte, mas eu tenho aqui meia dúzia para clientes especiais. Você quer ser meu cliente especial?

Eu disse que sim, meio a medo. Tão a medo que consegui dividir a palavra sim em duas sílabas: sí – im.

- Tome lá, leve lá o produto e dê-me cá 7 euros e 85 cêntimos. Até tinha que comprar também o Público de hoje, mas como você é cliente especial, eu deixo-o ir embora assim só por esse preço. É preço para clientes especiais, esse.

Sai da loja, guardei o DVD debaixo do casaco, sabia que tinha o mundo a olhar para mim, que todas as pessoas da rua estavam nas varandas e que as outras, as que não estavam na minha rua, estavam a ver-me também, de uma maneira que eu não sabia como.

Em cada um de nós há um herói que nos morre a cada conversa sem que saibamos porquê e um criminoso que queremos mostrar só um bocadinho.

Fónix, do grego phoînix

Há, para quem nunca reparou nesta evidência, um grupo de portugueses que diz fónix. Fónix não existe, por mais que estes entranhados nas nossas linhagens o queira de outro modo.

- Fónix para isto. – ouço eu.

Pensava, antes, que se referiam a Fénix, do latim phoenice, do grego phoînix, a ave que, queimada, renascia das próprias cinzas.
Contudo, quando comecei a descobrir a expressão noutros encadeamentos, entendi que não.

- Fónix, caralho! Martelei o dedo. – bradou o meu primo.

Tudo aqui mudou de configuração. Primeiro, juntar a divina Fénix a vocábulo tão ordinário, provavelmente proibido, pareceu-me tarefa fora da lógica. Percebi pela primeira vez que Fónix era um desabafo e que tinha de passar a considerar o termo dessa forma.

Essa gente que diz fónix, concluo agora, nada mais quer do que dizer foda-se sem realmente dizer foda-se. É gente que quer ter o prazer do desabafo, mas não assumir a consequência da asneira, é gente que vive numa espécie de coito interrompido linguístico.

Monday, October 15, 2007

Convocam-se todos os caçadores de vampiros

Tudo o que agora vou contar é muito provavelmente verdade. Assisti ontem da janela do meu quarto, pelas névoas da madrugada, a uma reunião de caçadores de vampiros no meu quintal.

Abraham Van Helsing estava meio encostado meio sentado a uma pedra húmida e esverdeada, de chapeú e cabelo sobre os olhos. Sentia-se que despreza a visão como sentido. À sua esquerda, um saco transparente cheio de cabeças com olhos amarelos abertos. Um espanto para lá da morte.

De trás do laranjeiro, que sempre deu laranjas azedas como limões, chegou Buffy. As calças muito justas, a cintura descaída, o penteado de anúncio de shampoo, o decote incontrolável.

- Por aqui, miss? – perguntou-lhe Van Helsing.
- Senti cheiro a vampiros mortos dentro de um saco de plástico.
- É possível, trago aqui sete, estou a acabar o trabalho. Este bairro tem mais do que seria de esperar. Sabe se nesta casa há algum?

Por momentos gelei. Temi que entrassem.

- Não me parece. O dono é um bocado feio, mas longe de se parecer com um vampiro. Além disso, não tem monosobrancelha, sinal evidente de que não é vampiro.
- Foi o que imaginei. Mas sabe melhor do que eu que os vampiros hoje não são o que eram. Nos meus tempos áureos, o nosferatu assumia muitas formas, mas tinha uma essência. Hoje pode ser qualquer coisa, em qualquer lugar.

Buffy aproximou-se da pedra onde descansava Van Helsing, insinuou-se, pareceu roçar-se no ar ao caminhar. Van Helsing manteve-se, experiente, à espera.
Num salto entrou Blade em cena, de óculos escuros, penteado quixotesco, careca no occipital e nos temporais e com um tufo na parte superior do parietal, uma caveira prateada no fato negro.

- Será que este senhor vê mal? Esse fato todo... também traz coquilha? Olhe que andam por aí uns vampiros danados para dar joelhadas...

Buffy não gostou que Blade tivesse chegado, parou no caminho que levava para Van Helsing.

- Ao menos tire os óculos escuros para falar com as pessoas. Ah, é verdade, espere, você também tem o teu quê de vampiro, estou correcto? Uma réstia genética, creio. Incomoda-se que acenda o isqueiro para queimar o cigarro ou a luzinha far-lhe-á dói-dói?

Blade nada disse, segurou a custo o ar indiferente.

- Que estão vocês aqui a fazer neste quintal? – perguntou apenas.
- Eu descansava, agora já não. Esta jovem, ignoro. Mas gostava de saber... – respondeu Van Helsing.
- Isso é lá com vocês, não me atrapalhem. Eu estou aqui em trabalho, ouvi dizer que havia um vampiro nesta casa.

Pensei meter-me para dentro e continuar a dormir, mas tudo era demasiado real para ser ignorado e continuei à espreita. A minha mulher chegou por trás, perguntou-me baixinho.

- Que se passa? Não tens sono?

E eu:

- Xiu, calada, não vês que temos caçadores de vampiros no quintal.

E ela:

- Está bem.

Assim que Blade começou a andar na direcção da minha casa, Buffy saltou para a sua frente, cortou-lhe o pescoço com um pontapé. Não sabia que se podiam cortar pescoços ao pontapé, mas podem. E é tudo provavelmente verdade. Blade desfez-se numa papa semi-vampiresca no chão, o meu cão saiu da casota e fez uma mijinha mesmo ao lado.

- Agora que este cromo está despachado, vamos a coisas mais sérias, velhote... Tens algo que eu preciso...

Dizendo isto, Buffy começou a despir-se, tirou a roupa muito lentamente, tão lentamente que a sua leve blusa parecia ter o peso de um sobretudo molhado.

E a minha mulher:

- Acho que já chega de espreitares, não?...

E eu:

- Xiu, calada, caçadores de vampiros.

Buffy sentou-se em cima de Van Helsing, frenética, em lampejos de luxúria. Helsing correspondeu, entendido, sempre encostado à pedra húmida. Buffy, numa reacção de entusiasmo, cravou as unhas nas costas do holandês e mordeu-lhe o ombro para não gritar. Van Helsing saltou de imediato para trás e cravou-lhe uma estaca de Madeira no peito. Anos e anos de convívio com vampiros nunca o deixaram muito à-vontade com dentadas.

Van Helsing, ainda ofegante, parou a olhar para o meu telhado, de onde voou um vampiro de asas muito abertas e olhos vermelhos.

- Caro Van Helsing... Vocês e as suas rodelas de alho, cruzes, estacas de madeira. Fique a saber que não posso morrer de qualquer das maneiras através das quais vocês possa tentar matar-me.

- Muita confiança na matéria, sobretudo vinda de alguém que nem sequer está vivo.

Dito, isto, Van Helsing puxou de um sabre de luz e cortou o vampiro em dezenas de bocados. Virou-se para a minha janela e disse-me: «Que a Força esteja contigo.»

E ela:

- Anda dormir.

E eu:

- Está bem.

Saturday, September 29, 2007

«Achas que leve um menir, Astérix? Nunca se sabe quando será preciso um menir», Obélix, em A Volta à Gália


Acho mesmo, do fundo do meu coração, que sou a única pessoa no mundo que visitou três vezes o cromeleque dos Almendres.

Fica à saída de Évora. Da primeira vez guinei o volante e conduzi quatro quilómetros por uma estrada de terra até um menir no meio de uma propriedade privada e, um quilómetro depois, até uma plantação de pedras com oito mil anos, alinhadas numa colina. É isso, o cromeleque.

Enfim, isto, como me parece evidente, serve para falar de Andorra. Estive de férias no sul de França e na descida passei por lá porque me apetecia subir e descer os Pirenéus num Ford Fiesta. Mas também por curiosidade relativamente às pechinchas do principado, para perceber até que ponto é possível combinar estas duas palavras: uma rasteira, pechincha, outra emproada, principado. Soam-me como rei das farturas.

Andorra é, sem preâmbulos, um esterco. Passei por lá uma manhã e gastei 90 cêntimos, correspondentes ao estacionamento no parque de automóveis. Nada mais.

Por mim, levava um menir para Andorra, nunca se sabe quando será preciso um menir.

Tuesday, September 11, 2007

Feira medieval da peste negra

Ao contrário do Carnaval, que para os portugueses é um hábito emprestado, compreendo as feiras medievais. Essas sim têm costumes nacionais. Perturba-me, porém, que nas feiras medievais haja poucas alusões à peste negra, incontornável cunho da era.

Eu sei, claro que sei, que tantas vezes o espaço não dá para tudo e aqui me concedo o direito de repreender as autarquias que, nos seus largos e praças, ao lado das barraquinhas de ginjas, de cervejas, das espadas e das vestes, da Ordem dos Cavaleiros da Palermice e dos bordéis de odaliscas, não reservem cinco metros quadrados que sejam para uma tenda da peste negra.

- Entrai, entrai, nada temeis, afagai estes ratos doentes, infectai-vos e morrei em poucos dias com borbulhas de pus e sangue no corpo com especial incidências nas virilhas e nas axilas. Entrai, entrai.

Alguém entraria, de certo, recolhendo folhetos, lendo sobre as injustiças que ao longo dos tempos foram ditas e escritas sobre esse advento da Idade Média.

- Meus amigo, soubésseis vós o tamanho da injúria. Dizer-se que a peste matou metade da população da Europa, como se a guerra e a fome que se passava na Idade Média nada tivessem a ver com o assunto. São esquecimentos que me entristecem. Agrada-me que se celebre tal época, tão destrutiva para a ordem e para o conhecimento dos povos, empestada de doenças e mortes, mas sempre propus que o façamos de modos mais condizentes. E do vinagre? Ninguém fala desses tempos tão aprazíveis em que as pessoas e as casas empestadas eram lavadas com vinagre? Entrai, entrai, conhecei mais sobre a peste. Infectai-vos à vontade, afagai o roedor, mas depois não saieis daqui a correr para um hospital, seria tal atitude muito pouco medieval.

Sunday, September 9, 2007

Esta malta do rugby

Culloden fica no Norte da Escócia, perto da cidade de Inverness. É um campo ermo, trilhado, de vegetação rasteira, com duas bandeiras, uma amarela e outra vermelha, último local onde se travou uma batalha terrestre na Grã-Bretanha. Nada mais lá está, além de um pequeno monumento aos jocobitas, gentes das Highlands que não eram imortais mas ajudaram um governante escocês aspirante ao trono de Inglaterra na batalha contra, claro, o exército inglês.

Ganharam os ingleses, mas o monumento de Culloden é, repito, uma homenagem aos jacobitas, que perderam. Disse-me o guarda, quando lá estive há uns anos, numa manhã de dia de semana, nevava que Deus a dava; era, pois, eu o único turista e, na dúvida histórica, quis confirmar com ele se aquelas pedras tinham mesmo sido erguidas para os derrotados; ele explicou-me, limpando o gelo dos óculos:

- Perdem-se umas coisas, ganham-se outras.

Sabem, portanto, os escoceses, como poucos povos saberão, que nem sempre a vitória é de quem ganha.

Hoje, ao ver Portugal jogar com a Escócia no Mundial de rugby, os jogadores a cantarem o hino de uma maneira que nunca tinha visto, como se quisessem que o ouvíssemos em Lisboa, e a lutarem como se a diferença entre o amadorismo e o profissionalismo fossem apenas os ordenados, o único final possível era ver Portugal ganhar, mesmo com a vitória dos outros.

Um orgulho e uma inspiração, esta malta, uma exemplar manifestação desportiva.

Sunday, September 2, 2007

Uma menina triste

A tristeza deste quarto de adolescente cai dos olhos das bonecas na cama. Aqui me deito depois do jantar, nestas dores de peito de menina, maltratada pelo mundo que me fez crescer outra borbulha na face. Logo hoje. Logo amanhã que ele faz anos e eu terei de lhe dar parabéns e uma prenda e isso vai obrigá-lo a olhar para mim e a agradecer-me. Agradecer-me, logo a mim que tenho uma borbulha na cara, só pode ser um agradecimento por ter pena de mim. A borbulha é tão pequena e quando aparece é tão mais que eu, tapa-me tudo o resto, esconde-me atrás.

Nenhuma música faz tanta companhia como uma música triste. Por isso gravei da rádio as músicas tristes de que gosto e fiz uma festa sozinha onde a realidade não entra. Escrevo no diário isto, a capa tem flores e ursos que as cheiram, as páginas são alternadamente laranjas e amarelas, com ramos nos cantos e a minha caligrafia em mutação - faço os cês de maneira muito diferente do que fazia antes – escrevendo o tanto que gostaria de lhe dizer amanhã, com a prenda que lhe vou dar, no intervalo entre uma aula e sabe-se lá o quê depois, como as músicas tristes que me acompanham em danças que imagino, em refrões cantados como se escritos por mim e para mim.

A prenda que lhe dou, ele que faz 15 anos também, uma prenda que era suposto ser eu, uma prenda que lhe dou no meu lugar e ainda nem sei o que será. Não é fácil encontrar uma prenda que me substitua, uma coisa que eu queira tanto dar-lhe como eu me queria dar a ele.
Podia ofertar-lhe a minha cassete de músicas tristes e convidá-lo para a festa onde estou só eu, todas as noites, aqui, iluminada pelo brilho das lágrimas das bonecas, aias do meu sofrimento, aias dos meus ais. Desconfio que músicas tristes não são compostas para ouvir sozinha, que quando nos queremos dar a nós jamais deveremos dar outra coisa.

Conduzir é isto

Conduzir bem é chegar primeiro. Há muito interiorizei a ideia de que todos os outros condutores querem chegar a minha casa antes de mim.
Nos semáforos olham-me de lado: certamente querem abrir-me o frigorífico e beber-me o último iogurte líquido da Adagio, desprezando de forma provocadora os mais baratos da Yoplait, para comer à colherada, ainda por cima sem pedaços. Pressinto até que mesmo aqueles que vão para o lado contrário vão para o mesmo sítio que eu, apenas por caminho diferente.

Por isso me tornei num piloto citadino, que vê classificativas onde os outros ruas; que vê boxes de reabastecimento onde os outros estações de serviço; público onde os incautos senhoras que estendem meias e toalhas de banho no primeiro andar.
Agradeço a meu pai ter herdado tão privilegiado entendimento. Permite-me, diariamente, chegar primeiro à minha casa. Jamais se verificou chegar à sala e outro repousar no meu lugar do sofá com cara de cheguei primeiro.

Dizia eu: o meu pai não conduz, foge à polícia. Para ele, qualquer operação stop é um embuste para o apanhar especificamente a ele, qualquer agente numa esquina é um enviado de uma milenar Irmandade que elege a cada década um condutor desprevenido para perseguir até ao derradeiro dia.

Bem, tenho de ir andando, vocês imaginam porquê.

Monday, August 13, 2007

Uma ideia para 50 milhões de anos

Domingos Casaca era um dos quatrocentos habitantes do Corvo, quase, quase no extremo ocidental da Europa, não fora a vizinha ilha das Flores. Desde miúdo se habituara a admirar a falésia da escarpa oeste, filha do findo vulcão, setecentos metros sobre as ondas, colossal vela soprada ao azul. Era a sua solução para a falta de realidades na ilha, um bocado de terra esquecido, amaldiçoado pelos criadores do Mundo na crista média atlântica, onde os ventos se apressam e as correntes se encontram para combinar caminhos.
Domingos tinha 20 anos, dinheiro da família, senhora das poucas terras disponíveis para plantar. Órfão, tinha um tio em São Miguel que abrira restaurantes e o tratava, ainda que à distância, com carinhos, atenções e mesadas de pai.

Domingos abriu uma loja de negócios a que chamou isso mesmo: Loja de Negócios. Uma fracassada armadilha para o tédio. Quis abrir minas de areia, engenhocas para fazer curvas na fruta, aparelhos silenciadores de cães, gatos e galos, casas com vista para o mar; coisa que numa ilha é o mesmo que valorizar uma casa pelo indispensável telhado. De que vale uma casa com vista para o mar quando todas as outras a partilham? As coisas valem pelo que são ou pela diferença?

Nunca o levaram a sério. Domingos Casaca era a zombaria da ilha, ganhava os finais de tarde a deixar o amarelo do sol entrar-lhe nos olhos como uma lente, sentado num morro, numa natural injecção de lítio. Ao longe, para lá das conversas acústicas das baleias, concebia a América. Gostava tanto do morro onde sonhava que o comprou por tuta-e-meia, como um pedaço de Lua em saldo.

Passaram-se 50 milhões de anos e a placa tectónica da América do Norte continuou a rodar monstruosamente e a afastar o Corvo das outras ilhas dos Açores. Hoje, a enorme falésia da ilha tem já vista para Manhattan. Foi um negócio de visão, o de Domingos, o único que resultaria realmente se ele, 50 milhões de anos depois, o pudesse festejar ao vento.

Saturday, August 11, 2007

Cátia Rosa escrita na parede

A Cátia Rosa dá a cona e o cu a todos, lê-se num muro ao lado de uma paragem de autocarro. De uma perspectiva gramatical, identifico com gosto a correcção do texto, o uso de maiúsculas nos nomes, a exactidão dos acentos. Poderia, se quisesse, questionar o predicado, porém.
, do verbo dar, é inadequado. Escolheria antes A Cátia Rosa aluga a cona e o cu a todos, ou mesmo empresta. Ainda que, se é perfeição que busco, prefira disponibiliza, que me parece uma espécie de empréstimo à vista, isto é: usa que eu deixo, mas não penses que me vou embora e ficas sozinho com o que é meu, nada disso, podes usar, contudo eu fico aqui a ver se não estragas.
É, claramente, de disponibilizar que se trata.

Além de ilegal, porque é proibido escrever em muros com sprays, ainda que a mensagem seja, como é, de amor, ignoro até onde abonará a favor da senhora Cátia Rosa, que eu desconheço e por isso assim trato e considero.
Dar a cona e o cu a todos parece-me uma generalização absurda. Primeiro, o complemento todos abarca uma quantidade de seres que facilmente extrapola as fronteiras da possibilidade, alargando-se imparavelmente para sexos, raças e até espécies. A todos, portanto, soa-me a bem mais que um exagero, acima de hipérbole, é, claramente, uma impossibilidade e por isso perde crédito e até nomeação gramatical. Seria o mesmo que dizer: vou ali almoçar e depois, finda a digestão, vou, como é meu hábito desde há muito, cagar à Lua. Ninguém me levaria a sério e eu compreenderia as razões.

Só concebo o uso da palavra todos porque confere, indesmentivelmente, energia. Se a tirada fosse A Cátia Rosa dá a cona e o cu a quase todos, pareceria menos austera, pois reservar-lhe-ia, a priori, à senhora Cátia, particularidades de selecção que talvez não possua.

Se fosse dá a cona e o cu a quatro ou cinco, permaneceria com má reputação, no entanto essa opção levaria a que alguém perguntasse por baixo, num spray de outra cor: a quem? quem são os cinco? Isso poderia, pois, conduzir a um diálogo de estranhos num muro, gestos, repito, ilegais.

Se fosse A Cátia Rosa dá a cona e o cu ao Luís, isso, para quem passa e não conhece nem um nem outro, de pouco vale como ofensa e muito menos como entretém. É da vida de cada um, conjugal, ninguém tem nada a ver com isso. Ainda que aumente a precisão, perde-se, curiosamente, o anterior mundo de possibilidades.

A frase está, estranhamente, riscada, as letras horizontalmente atravessadas, o que conduz a questão para outro domínio: quem redigiu e quem reprovou? O autor só a riscaria se porventura se tivesse enganado a escrevê-la. Imagine-se o horror de ortografar tal obra de arte e depois atestar que se tinha colocado, sabe-se lá porque paragem cerebral, um acento circunflexo no o da palavra cona: côna. Só mesmo riscá-la logo de seguida para ninguém dar por isso.

Parece-me, continuando, num assomo de perspicácia, que terá sido Cátia Rosa a riscar. Tinha afastado à partida a possibilidade de a frase ser um classificado, pois não havia número de telefone com ela, nem sequer referência ao grau universitário de dona Cátia. Era, antes, sem dúvidas, uma opção de enxovalho, até pela crueza, despida de eufemismos, manifestada na escolha criteriosa dos termos.

E quem escreveu?
Perguntaram-me num dia destes, naquilo que foi para mim um constrangedor momento, se eu sabia quantos tipos de mulheres há. Atrapalhado e ignorante, devolvi: como assim?
«Três: as santas, que andam só com um; as putas, que andam com todos; e ainda as filhas da puta, que andam com todos menos comigo! Hahahahaha», responderam-me.

Não descubro interesse na anedota, primária graçola de aldeão, todavia a ordem do raciocínio exposto ajuda-me a concluir que quem escreveu foi, justamente, alguém a quem Cátia Rosa nada deu. E assim se explica, ainda, o risco que ela fez na frase, que para o autor resultará subentendidamente numa espécie de: confirmo, dei a todos menos a ti. Ainda que isso lá não esteja escrito, pois é ilegal escrever em muros e Cátia Rosa disponibiliza o que é dela não anda a roubar para disponibilizar aos outros. Grande Cátia Rosa, dá-lhes.

Thursday, August 9, 2007

Memória do ferro velho

A rua era enviesada, um caminho bêbado, talvez um quilómetro ladeado de garagens e espaços abertos de carros amontoados. Era o que se podia querer de vez em quando aos sábados de manhã, na companhia do pai ou do avô, ora à procura de partes para o Ford Escort, mais raro, ora em jeito de passeio, na senda de peças que pudessem interessar para as reparações do avô.

Uma alegre manhã de destruições. Imaginar os despistes que contorciam os carros daquela maneira, hipnotizado pelo horror, como se os carros andassem sozinhos e se destruíssem para nosso bizarro espanto contra muros ou contra outros. Havia sempre as peças que se queriam. Sempre um carro daquela marca que estava partido em todo o lado menos naquele que se desejava intacto. Um retrovisor direito, um vidro de trás, uma jante, um tablier, uma grelha. Eternamente um senhor, o demónio daquele inferno, a descer gordo, a rebolar, de um patamar superior, um palácio de pneus, aromas de borracha nova e queimada, um cheiro indeciso no tempo.

O tinhoso cumprimentava toda a gente com ilusória predilecção. Parecia conhecer há muito o meu avô, há menos o meu pai. Eu parecia-lhe sempre novo por mais vezes que lá tivesse ido. Perguntava o meu nome, separava-me os caracóis do cabelo com uma mão de preto fluorescente de óleo que ao lado escorria de um carro para um alguidar e depois para o esgoto, deixando pingas no chão de cimento, pingas que tatuam, que jamais dali saem.

O demónio tinha sempre as partes das coisas antes inteiras. Das poucas vezes que não, descansava o cliente, arranjá-las-ia quanto antes noutro lado, como se encomendasse os desastres ou ele mesmo os provocasse. Para vender os azares e as tristezas dos outros aos bocados que, então sem pensarmos nisso, ele trazia até nós como dádivas.

Thursday, August 2, 2007

Morte aos pinguins


Voltando aos animais, tema em mim recorrente. Se um dia eu for estudado em faculdades – o que me parece improvável a não ser que a minha família doe o meu cadáver à ciência – irão referir-se a mim e aos meus textos como aquele que falava de animais.
Pinguins.
O pinguim é um bicho que desperta simpatia a qualquer que seja a mulher e a cerca de 80 por cento dos homens. O pinguim hipnotiza por razões que ainda não foram apuradas. O estado de queridismo – deriva de querido – em que a generalidade dos pinguins se encontra é um dos mistérios da fauna.
É por isso que reduzi-lo ao ridículo, ainda que também eu nutra por ele simpatia, me parece interessante. Vejamos: começa por ser ave não voadora, o que é quase como um cão que não ladra ou um gato com vertigens. Eu sei que há mais aves que não voam, mas não é sobre elas que falamos.
É, ainda, um totó. Fica a chocar os ovos enquanto a respectiva vai para o bem bom, nadar, à procura de alimento.
Termino com uma lista de espécies que não deixa dúvidas sobre a palermice: pinguim-imperador, pinguim-rei, pinguim de Adélia, pinguim-de-barbicha, pinguim-saltador-de-rocha, pinguim-macaroni, pinguim-azul, pinguim de Magalhães.
Para não falar do próprio nome: pinguim, que me soa espirro e me deixa uma sensação de comichão no nariz.
Que será dos pinguins quando gelo do planeta derreter? Lá terão de ir todos para cima dos frigoríficos, pois. Eu tenho lá um em casa, daqueles grandes, combinado. Ainda sou gajo para salvar quatro ou cinco, vá.

Thursday, July 26, 2007

Legalize doping


Cambada de mamados, estes gajos do ciclismo. Mas eu, lá no fundo, acho bem. Já vi provas de ciclismo de perto e sinto, ainda que nunca tenha tentado, que há malta que faz coisas impossíveis. Eu, como espectador, quero é ver coisas impossíveis. Não quero ver ciclistas que digam: «E pá, vamos lá a ter calma, não sei se consigo subir a essa montanha toda, isso é coisa para a dada altura ter alguns dez graus de inclinação na estrada, isso dá cabo de um gajo, nem pensem.»
Eu quero é ver a pelotão a amarinhar e ficar a pensar: «Sacanas, estes gajos são mesmo os maiores, eu era incapaz de fazer aquilo. Não sei como eles conseguem, chiça.»
Lá está, no fundo até sei, provavelmente vão dopados, mas eu quero lá saber. Legalize!

Tuesday, July 24, 2007

Morte aos koalas


A Natureza desperta-me curiosidade natural. Perturba-me a ideia de que além do nosso mais amplificado entendimento, nada nos torne verdadeiramente notáveis no reino. Vejamos: somos mais fracos do que os de grande porte, mais vagarosos e menos elásticos que os felinos e tantos outros; a nossa capacidade olfactiva é trezentas e não sei quantas vezes menor do que a dos cães e a visual é ridícula comparada à de uma águia. E mais: juntos somos minúscula parte do número de insectos na Terra. Quer isto dizer que se os outros animais fossem um bocado espertos e organizados, estávamos lixados.


No entanto, apesar de tudo, somos mais animalescos do que pensamos. Há, por exemplo, um símio que tem maldade intrínseca, como nós: o babuíno, que bate nos outros elementos do seu grupo, incluindo fêmeas, de forma indiscriminada. É um macaco que aprecia bulha e sarrafada.


Num dia destes, descobri algo que me forneceu de ideias babuínas. Não sei até que ponto será exagero, todavia parece que os koalas têm um coração tão frágil que podem morrer em contacto com humanos. Acagaçam-se de tal forma que se um de nós – que, como referi, comparados com os outros temos muito miolo mas pouca côdea - lhe pegar ao colo podem ficar-se ali, num suspiro de horror.


Sorri quando o descobri e a única coisa que me passou pela cabeça foi viajar para a Austrália, aproximar-me silenciosamente de um eucalipto cheio de koalas e, quando não estivessem à espera, tranquilamente a comer folhas, correr à volta do tronco aos gritos como se o mundo fosse acabar. Seria ver os coalas, coitados, a caírem da árvore como fruta madura.


É para ter ideias parvas como esta que se pensa e os outros não? Ou somos mais babuínos do que pensamos?

Thursday, July 19, 2007

Litortura

Às vezes chateia-me a literatura que não percebo. Ora vejamos:

«Ela parava no espaço como se o tempo não contasse, ela vivia apenas em si como se o mundo fosse dos outros. Eu ficava por ali perdido nos caminhos por mim traçados, sentado num comboio sem viagens, provando coisas sem sabores.
De cada vez que as noites duram assim, como se a manhã fosse a coisa mais distante a inventar. De cada vez que a única coisa em comum que temos é a outra margem, ao fundo, para onde olhamos como se nenhum de nós estivesse aqui, como se o tempo fosse mais importante que o espaço e nos apetecesse sair daqui para ir passear no ontem»

Escrevi isto devia ter uns 16 anos ou 17, dei por estas coisas num bloco muito antigo. Hoje não faço ideia do que significam e fico danado por sentir que a coisa teve, certamente, um poder qualquer quando foi escrita. E hoje é um resto.

Já li muita coisa que não percebi, muitos autores que descubro em esforço, mas esta é, enfim, a descoberta da minha literatura afundada no oceano, a minha litortura, palavra que não existe mas que inventei para as coisas que escrevi e me fizeram doer. Litortura.

Wednesday, July 18, 2007

Do número de gajas comidas

Diz um amigo para outro, orgulhoso, num bar onde não se pode fumar cheio de fumo.

- Já comi mais de 400 gajas. Pergunta a quem quiseres se tens dúvidas.
- Pergunto a quem?
- Por aí.
- Para avaliar a veracidade precisaria de perguntar às 400 gajas que comeste. E estaria até sujeito a que algumas, mesmo sendo verdade, te desmentissem. Para compensar, só se algumas que tu não tivesses comido dissessem, sabe-se lá porquê, que realmente foram comidas por ti. Como posso saber isso?
- Pois, não podes, tens de confiar em mim.
- Tenho de acreditar que apesar de teres 24 anos já comeste mais de 400 gajas?
- Pois. Tu, quantas comeste?
- Oito.
- Pfff, xonhinhas. Eu, mais de quatrocentas, contadinhas.
- Contas com as que comeste por chat?
- Não.
- Mas contabilizas as punhetas, certo?
- Não contabilizo nada. Acreditas ou não?
- Acreditas que eu só comi oito?
- Acredito.
- E que uma das oito foi por chat?
- Acredito.
- Então pronto, também acredito em ti. Os amigos são para acreditar nestas merdas.

Friday, July 13, 2007

Dizer as letras todas

Tenho grande simpatia por pessoas que não dizem os éles. Assim como pelas incapazes de pronunciar erres. Nunca conheci uma que, em simultâneo, não diga qualquer uma destas letras e por isso tenho muita pena.

Já não tolero fanhosos. O fanhoso é um indivíduo que fala metendo a voz pelo nariz.

Gostava de conhecer gente que não diga outras letras. Como falará alguém que não diz ús? Deve ser fantástico alguém não dizer os ús, porque fica também impossibilitado de dizer muitos ós. Alguém que não diga ús, o que dirá quando quiser dizer o urso? Julgo que terá de ficar calada.

Se fosse rico e tivesse direito a extravagâncias, teria no meu castelo de Valáquia uma galeria de gente que não diz coisas, desde o a ao z, e iria torturá-los, consoante a minha disposição, com pedidos de frases impossíveis. «Tu, que não dizes os vês e ainda por cima tens um azar do caraças que te chamas Venâncio, lê-me lá esta frase, vá: o Vasquinho bebeu vinho venenoso e morreu de overdose de uvas», ordenaria eu, senhor supremo do universo de quem consegue dizer as letrinhas todas, tal e qual como ficam espalhadas pela sopa
«Tu, que não dizes os ás, lê-me lá o nome desta marca antiga de óleo, vá: Três ás girassol».
Mantenho a minha busca por alguém que não diga nem os erres nem os éles, ao mesmo tempo. Para mim, um Santo Graal da oratória.

Monday, July 9, 2007

Dependente de tóxicos

Compreendi quando Keith Richards confessou ter snifado cinzas do pai. Trata-se de uma actividade que me provocaria náuseas e eternos problemas de consciência, mas compreendi.
Há um campo de snifagem onde me incluo desde miúdo. Quando acordava pela manhã, ia à cozinha acender o esquentador para tomar banho e ficava, depois, a aspirar avidamente o fiozinho de fumo que ficava no ar, a sair do fósforo. Acredito que também isto me tenha causado problemas de consciência, ainda que mais relacionados com a sua perda do que com o seu peso.

Tenho um amigo que me confessa interesse no cheiro do pó para a máquina de lavar, outro que recentemente me falou de Sonasol, um tal que prefere incenso e ainda um que quase se deita nas bombas de gasolina para inalar vapores do gasóleo e que, por sua vontade, respiraria monóxido de carbono permanentemente.
Da escola primária, recordo um colega de carteira que bebia a água de lavar pincéis que ficava nos frasquinhos e mamava borrachas inteiras como quem trincava rebuçados de mentol. Cambada de drogados.

Sempre que eu chegava a casa e tentava explicar à minha mãe que me tinham comido as borrachas, ela não sabia que pensar. Imagino que lhe tenha passado pela cabeça proibir-me de andar com tais más companhias, contudo isso implicaria tirar-me da escola. Nunca o fez. No fundo desconfiava que tudo era por mim inventado, uma artimanha para deixar de frequentar as aulas.
Um dia também me desapareceu um tubo de cola UHU. Já nem estranhei. Lembro-me de a minha mãe me ter deixado de comprar material escolar, tive de pedir borrachas emprestadas até à quarta classe.

Pergunto-me como terá começado o Keith Richards.

Sunday, July 8, 2007

A anedota que morreu de tanto rir

- Pá, pá, digam-me lá: se um porco tem quatro pernas, então de onde vem o fiambre de perna extra?
Hahahaha, riem-se as pessoas na mesa do café.

Fico constrangido ao ponto de às vezes não me conseguir rir mesmo que ache piada. Por outro lado, se não achar piada sinto-me forçado a sorrir. Uma anedota não é uma anedota, é uma imposição ao meu estado de espírito, é algo que me vira ao contrário.

Apetece alimentar a laracha até lhe sugar a comédia.

- Não percebi.
- Não percebeste, então? Se só tem quatro pernas, qual será a perna extra?
- Não sei.
- Então, é, tipo, outro membro, hehehe, estás a ver?
- Pretendes com isso afirmar que o fiambre de perna extra é feito das pichas dos porcos?
- Sim, quer dizer, a piada é essa.
- Qual é a piada de comer fiambre feito de picha de porco?
- Mas não se come a sério, o de perna extra é de perna como as outras.
- ...
- Não era a sério. Agora que me fizeste as perguntas tornaste a piada numa situação que deixa de ter piada, uma anti-piada.

Percebem o que quero dizer? A anedota, em si, no fundo, é como eu: virada ao contrário perde-se no sentido. As coisas engraçadas são as que acontecem e só muito raramente as que se contam. É por isso que me sinto triste com este meu último post, este aqui em baixo sobre fazer o amor dentro de uma carruagem de metro. Sujeito-me a que alguém me pergunte:

- Mas sabes o que quer dizer metrossexual ou és estúpido?

E eu lá teria de responder:

- Não era a sério. Agora que me fizeste as perguntas tornaste a piada numa situação que deixa de ter piada, uma anti-piada.

Acabemos com as piadas, fiquemos sisudos.

Metrossexual

Alguém que tenha o fetiche de fazer o amor dentro de uma carruagem do metro será metrossexual?

Sunday, July 1, 2007

Júlio Isidro

Tenho desmedido respeito por Júlio Isidro. Assim é desde os meus tempos de associado do Clube Amigos Disney.
Lembro-me de, já não sei onde, Júlio Isidro ter apresentado um passatempo para miúdos, na rua. Passava eu com meus pais e o concurso era canja: empurrar uma enorme bola contra colossais pinos. As crianças que os derrubassem ganhavam uma t-shirt com um gorila estampado, aquele das pastilhas. Júlio Isidro, porém, verdadeiro benemérito, oferecia uma camisola a qualquer miúdo que deitasse pelo menos um pino.

Eu, meio envergonhado, lá fui tentar, impingido pelos meus pais. Não derrubei um sequer. A gigantesca bola rolou vergonhosamente para fora da pista, eu virei costas e já caminhava para abrigo materno, humilhado nos meus três anos, quando Júlio Isidro, envolto de uma divina luz brilhante, desceu das nuvens, sorriu-me e deu-me a t-shirt do gorila na mesma. Obrigado, Júlio Isidro.

Sempre o considerei uma referência do saber estar, da forma educada, controlada e culta de conduzir um programa de televisão. Num dia destes, ouvi-o dizer: «A banda as Sáizor Sisters.» Não sendo Sáizor, como ele pronunciou, mas Scissor, como se diz, é, acho eu, pior do que dizer as em vez de os. Até porque, tratando-se de quem se trata, chamar-lhes as afigura-se-me a milhas de qualquer ofensa. Perdoo-lhe o erro. Dar-lhe-ia uma t-shirt com um gorila na mesma.

Saturday, June 30, 2007

Futebol cultural

Para mim, o meu pai só chorou duas vezes: a primeira foi há pouco mais de um ano, quando lhe morreu o pai, a segunda há tantos que me esqueci quantos. O número é tão disperso que ilude a contabilidade, só o coloco no espaço: à saída do estádio, a gente tinha perdido o jogo, descíamos numa multidão para a rua. As vozes ralhavam, eu comparava as razões do fracasso. Não há memória de um desaire sem explicação ou mesmo de um que tenha apenas uma.
Tinha o braço direito esticado para cima e a mão agarrada à esquerda do meu pai com toda a força dos músculos. O meu pai tinha lágrimas que ainda hoje não compreendo. Não me lembro do jogo, de tão absorvente tudo o resto depois dele. O futebol era aquilo, eram lágrimas.


Muitos anos mais tarde, na faculdade, admirei um professor clássico, barbicha branca, óculos, cabelo comprido, inteligência chapada, ensinava filosofia antiga como quem conta histórias. Gostava de pré-socráticos, ele.
Quando um aluno, sem saber onde se metia, mandou vir com a menoridade do futebol – as relações entre o jogo e as letras da Antiguidade Clássica são surpreendentes – por pouco não levou uma docente chapada de um mestre irado nos seis idiomas que dominava. Chamou-lhe, para a turma ouvir, coisas ainda mais forasteiras do que Anaxímenes de Mileto, Heráclito de Éfeso, Demócrito ou Xenófones de Colofon. O futebol, então, além de lágrimas, confirmou-se para mim como cultura. Como o cinema, a literatura, a música, a geografia, a política, a televisão. Não um ramo do saber, mas uma folha que não se deve deixar cair da árvore como uma triste mentalidade de Outono.


Por tudo isto, custa-me perceber quem se vangloria de nada saber de futebol, como se isso, obrigatoriamente, a tornasse dominadora de todos os outros assuntos que interessam. Como um cego, que de não ver apura os outros sentidos. Porém, acontece que ser cego para uma matéria chega a limitar a capacidade de relação com outras. Eu, se não sei de aeronáutica ou explicar, de maneira que se perceba, a teoria da relatividade, fico triste, informo-me, corrijo-me. Só as lágrimas do meu pai a segurar-me pela mão é que não percebo. Do resto, faço questão que nada me escape, agarro-me às coisas com toda a força dos músculos.

Friday, June 29, 2007

As t-shirts sentem

Cada mancha naquele trapo, uma medalha da vida, uma homenagem dos tempos.
- Se calhar é melhor mandares essa t-shirt fora.
Até as nódoas que desapareceram fazem parte dela. Noites de suor e cuspo, mais do que pingos de cerveja: pingos de várias marcas, nacionais e estrangeiras, quase um catálogo de cevadas; aqui e ali um ou outro resto de uma coisa qualquer, talvez vinho, uma bebida branca que nunca destoou numa camisola também ela branca, tela das memórias.
- Tem o colarinho descosido, acho que a deverias usar apenas para vir à praia e mesmo assim não sei bem.
Os tons amarelados debaixo dos braços, camadas dos jogos de futebol, talvez até um mau cheiro permanente que toda a gente vê bailar nos pelinhos do nariz. Menos eu. Um acastanhado de chocolate, um tom verde, muito disperso, de relva, parece-me também ao fundo encontrar algo de encarnado, que não sei se é de sangue de antanho ou do meu coração que agora se desfaz por dentro e me suja a roupa desta maneira.
- Por favor, não tragas mais essa t-shirt para a rua, usa-a só em casa. Para quando um dia for preciso pintar uma parede, ou isso.

Magoam-me, estas coisas. Sinto que nelas o tempo passa mais depressa do que nos relógios.
- Então pronto, fica na gaveta, não se manda fora, mas também não se veste. Fica guardada juntamente com as outras novas.

Isso.

Sunday, June 24, 2007

Carros bonitos e mulheres bonitas

Talvez se fosse elefante me recordasse, contudo não tenho memória de ver um automóvel bonito conduzido por uma mulher feia. Será por magia que uma senhora ao volante de um vistoso veículo seja sempre de especial beleza?

Proponho-me a colocação de série de possibilidades para análise.

1. Será a miúda gira só naquele automóvel?
2. Será aquele automóvel bom com qualquer miúda?
3. Será que as feias merecem, além de serem feias, ter de andar em carros maus, coitadas?
4. Se a miúda gira ao volante do tal automóvel me atropelar, será que lhe dou uma chapada na tromba e lhe chamo nomes e lhe digo «mas tu és estúpida ou quê? Não viste que ia na passadeira? És mesmo feia e tens um carro de merda, ainda por cima!» ?
5. E se uma feia me der uma boleia?

Não é fácil isto do mundo automóvel.

Monday, June 18, 2007

Gente que não cozinha

Uma fileira de frasquinhos de temperos: manjericão, orégãos, cravinho, cominhos, noz-moscada, pimentas, piri-piri, louro, paprika. Rolhados, tristes de tanta inutilização, ali a carpirem mágoas juntamente com os pratos do armário, vizinhos de cima no prédio dos aborrecimentos.
Ela entupia as amigas com as suas desculpas e incapacidade para cozinhar, que não dava, que as mulheres, hoje, devem despir-se dessa responsabilidade culinária, castradora de emancipações, que no tempo da avó é que os homens se conquistavam pelo estômago. Nunca percebera, porém, que aos homens, tal como às mulheres, se acede pela inteligência, pela sensibilidade e pela beleza, nem sempre por esta ordem, porém eternamente com este conteúdo.
A amiga, num dia em que foi almoçar lá a casa, ao cortar a película de plástico que cobria a tampa dos orégãos para dar sabor e cor à omeleta, tentou fazer-lhe ver que cozinhar não é de homem ou mulher, é de Homem, de espécie. Explicou-lhe que não ter mão para o sal é uma coisa, contudo ignorar que um bife precisa de sal é outra; que não saber usar uma gordura ou não perceber o funcionamento básico dos grelhados, fritos e cozidos ultrapassa pela direita o talento culinário e entra à má fila no cruzamento e no domínio da perspicácia. Grelhar, lembrou, é das mais básicas acções humanas, pré-histórica: pegar em carne crua e deixá-la queimar-se.
Ela claro, brilhante, devolveu-lhe a sugestão com uma interjeição imperceptível e escreveu na lista de compras pendurada na lateral do frigorífico, tudo em maiúsculas e com um fluorescente sublinhado: «NÃO SEI COSINHAR, NÃO SEI COSINHAR E NÃO COSINHO. TENHO DITO!». Assim mesmo, com erro ortográfico e tudo, dando prova de que as canetas, reveladoras ou traidoras da inteligência e do cuidado com as coisas, também deviam, às vezes, andar fechadas e infelizes de tanta inutilização, como os frasquinhos que nos temperam as ideias, os bifes, a vida.

Ficou-se no túnel a cinquenta

Ele ia desvairado, às turras com a vida, perdido nas suas ruas, com a Feira Popular à direita, ao comando do automóvel, de cotovelo esquerdo na porta e a palma direita nas mudanças. Acima do pavimento, a contraluz das estrelas, o painel avisava 50, piscava ameaçadoramente. Estranho haver ali cinquenta radares, pensou. Imaginou-os furtivos nos telhados, de miras escarlates nas suas testa e barriga, pontinhos de luz que rapidamente eram balas.
Tinha opções: descer o túnel do Campo Pequeno, à velocidade máxima de 50 – percebera então a que dizia respeito a certeza do número – ou continuar por cima, arriscando três semáforos. Optou pelo túnel, no entanto, a meio da encaracolada corrida, arriscou 55 e logo 60. Há noites em que só apetece acelerar, deixar o próprio vento para trás, transformar as curvas em rectas, esticar o pavimento, queimar a borracha, dominar a máquina.
Já do outro lado, na luz salpicada da noite da capital, cinquenta agentes da autoridade lhe bloqueavam a passagem, cinquenta velhas armas puxadas dos coldres poeirentos, cinquenta caras de mau e cinquenta ordens para sair do carro com as cinquenta mãos nas cinquenta cabeças, se as tivesse. Seria um duelo do Oeste, se eles não fossem cinquenta; era um cinquentelo.
- Deita-te já imediatamente no chão, já no chão, já, já, ou ainda te rebentamos os miolos, já no chão, já! Que merda é essa de vir a sessenta no túnel? Julgas que esta merda é a Bósnia?
Inconsciente da ameaça, arrecadou uma saraivada de cinco dezenas de balas na tromba, nos costados e no cachaço, abatido ali como um touro de morte à sombra da praça.
Para a próxima, reflectiu enquanto mordia os próprios dentes e o sangue lhe escorria pelos orifícios como um bife grosso na brasa: «Vou por cima, para a próxima vou por cima do túnel; mesmo arriscando três semáforos vermelhos ainda chego ao outro lado mais depressa do que se for por baixo a cinquenta.» Tinha 27 anos, essa idade para morrer, coitadinho, o que lhe faltava para os cinquenta.

Friday, June 15, 2007

Salto mortal

Era uma vez um fulano que foi dar um salto mortal e, claro, morreu. Seria de esperar outra coisa? Eu pessoalmente, quando vejo alguém dar um salto mortal e sair vivo, sob aplausos, numa tenda de circo ou num sarau de ginástica, sinto-me dominado por uma certa desilusão. Se quiserem, podem chamar-lhe salto arriscado, ou mesmo salto difícil como o caraças, ou salto que vocês queriam fazer e não conseguem porque é preciso uma preparação física que nem aos dez anos vocês tinham quanto mais agora que vão a caminho dos trinta; agora, peço desculpa aos ginastas e aos circenses, todavia salto mortal é para morrer e quem der um salto mortal e não morrer é, para mim, um xonhinhas do piorio.

Wednesday, June 13, 2007

Santos Populares no Inferno

Algo faz discutir a essência popular dos Santos Populares e as suas ligações ao cunho religioso, afinal falamos de santos. Ainda que a religião seja a coisa mais banal da humanidade, a cristã nunca me pareceu festiva – nem nos casamentos - nem dada a encher copos – sagrado vinho - nem a sardinhas e febras – maldita gula -; sempre desconfiei que isso das melhores coisas que há fossem ofertas do demónio, esse rufia boémio que se enfrasca nos nossos medos e se diverte com diversões evitadas pelos outros, que se alimenta do que nós temos medo de comer, sorri de tudo aquilo que achamos não ter piada.
E descer as ruas dos elevadores em direcção às praças cheias de gente e barulhos de música, artistas mascarados no palco, papéis e fitas e marchas num imenso carnaval barato, com a sensação de estar a andar para trás, de tão lento e penoso caminho, o carácter litúrgico da descida pelo trilho do elevador da Bica mesmo até lá abaixo, àquele pequeno inferno em nome dos Santos.
Terá Santo António sido expulso do céu como um anjo rebelado? Disseram-me que sim, há muito tempo numa esquina, onde um restaurante ainda existe e um dono chamado António, que quando estava bem disposto e fazia desconto nas bebidas chegavam mesmo a santificá-lo. Quando morrer, coitado, vai arrepender-se de tudo como nós ou viver numa descida ininterrupta até à festa.

Gelmir Isauruta, filho de Isurupta, filho de Irupta, filho de Puta

Sancho Frumblefoot of Scary, um rapaz-repolho vindo nas costas dos porcos alados das Montanhas Que Só Desciam, temia os poderes mágicos do grande mestre das cores mais escuras que preto, o temível senhor Lólondir Isilrá, que cuspia bocados de vómito misturado com o sangue dos Homens a quem comera as orelhas até aos tímpanos.
Sancho Frumblefoot of Scary, acompanhado pelo melhor amigo Boffin of Needlehole e pela sua Rosie-Posie Bramble of Willowbottom, subiu às Montanhas Que Só Desciam, onde os élfos plantavam rábanos nas margens do rio Daéron Culmano, cujas correntes eram sempre a favor dos caminhos a tomar pelos barqueiros de antanho, dividindo-se os cursos das águas como se dividem as estradas, umas num sentido e outras noutro.
Até que a meio do caminho para Nenhures Raivósorium de Alface, se ouviu o guincho cortante de Lólondir Isilrá, que de repente, só por si, cortou o pescoço com a mente a Boffin of Needlehole e a Rosie-Posie Bramble of Willowbottom, que transformados em pedaços de carne e sangue cairam ao rio e foram levados pela corrente, um em cada sentido. Sancho Frumblefoot of Scary sentiu os pavores dos Homens e do Élfos e dos Anões e de todos os seres pensantes e falantes das Terras Grandes de Alcácer de Valándil em simultâneo.
Das entranhas do desespero, detrás da Floresta das Arvores Ressuscitadas, surgiu Gelmir Isauruta, filho de Isurupta, filho de Irupta, filho de Puta, que disse para Sancho Frumblefoot of Scary: «Estás todo fodido, vai mas é para casa.»

Wednesday, May 30, 2007

O dono da arte

Estreito e mal vestido, dirigiu-se à caixa. Quem o visse pelo ecrã do circuito fechado prendê-lo-ia assim que sacasse da eventual pistola. À sua frente, o livro As 30 Melhores Saladas para Agosto levava uma senhora pela mão.
- Olá, boa tarde, quanto custa isto?
- Isto o quê? – perguntou a menina da caixa, de cérebro a voar nos balões de pastilha que lhe cresciam da boca.
- Isto tudo, a loja inteira, livros, discos, tudo.
- Ah, vou é demorar um bocadinho a fazer a conta, sabe que temos muita coisa em stock e isso. Mas quer tudo mesmo? Coisas repetidas?
A menina começou a somar: dez mil trezentos e vinte e quatro discos, oito mil vídeos, dezasseis mil e dois livros.
- Treze mil duzentos e noventa e nove euros. Tem cartão Fnac?
- Não.
- Como é que quer levar as coisas?
- Fica aqui, vocês é que se vão todos embora, faço disto sala de estar.

Tinha obsessão pelas colecções, o rapaz. Queria tudo o que via, desde que completo e organizado. Enriqueceu um dia com números certos cruzados e riscados num papel, atirou-se às outras colecções que lhe faziam falta. As ideias que tinha em si, porém, juntas e desordenadas, foram-lhe roubando capacidade de processamento e foi-se embora aos poucos em pensamentos perdidos do mundo e compras das ideias dos outros. Nunca foi o artista que quis ser e vingou-se, vendo-se um dia, à saída da loja, dono de toda a arte.

Friday, May 25, 2007

Da barraca de beijinhos, primórdio de putaria

As pernas, um arco de triunfo. Era concorrência do bordel de cima, dava-se em vez de se vender ou alugar, a libertina da região, satisfeita, variada. Em seu prejuízo a dispensável fama que a transportava de boca em boca mais que de outra coisa em outra coisa. Parecia chorar ao sorrir das piadas que deslizavam do final do balcão como cervejas que nem pingos entornavam.

Aquela vontade de vadiar era droga com a qual tinha perdido batalhas e guerras, vítima de um bombardeiro sentimental que lhe sobrevoava ruas e casas. Diariamente lhe caíam petardos de sentimentos em cima, chuvas ácidas de culpa.

Conhecera um homem que a entusiasmava no privado e a respeitava no público, mas que fugira cedo, confrontado com o seu crédito de trazer por casa, ao contrário do que acontecia em filmes que tinha visto, onde os sonhos se transformavam à medida que as pessoas entravam na história. Na vida, tantas vezes, por pessoas que nos entrem na história há sonhos sempre iguais. Havia outro homem, já casado, que tinha a vida que ela secretamente desejava, porém desgraçadamente sem ela. Não estava ela na fotografia em cima da cómoda, à vista do que faziam despidos no sofá.

Passou na feira da pequena cidade, bolos com óleo, estonteantes danças de cores e luzes e barulhos coordenados ao ponto da irritação. Ao fundo, atrás de uma fila, uma adolescente vendia beijinhos inocentes a cinco dólares numa barraquinha improvisada e uma tabuleta: «Kiss and tell». Foi lá, pagou cinco dólares e sentiu-se menos mal.

Sunday, May 20, 2007

Quantidade de coisas

Não havia coisas suficientes. Ficava-se ali, dactilógrafo do nada, de lápis na mão atento aos ditados do vento. A mãe, da cozinha, o cheiro a alho nos bifes: Jantar, venham jantar, vai chamar o teu pai à sala.
No caminho até à mesa desviava-se dos barulhos, estava tudo desligado, as notícias da televisão, o pai a dizer que não via o filho estudar há tempos, silêncios em cima uns dos outros, concertados, orquestrados pela mão que cortava infantilmente o vento e fazia zum com o lápis marcado pelos dentes.

Há coisas de mais. Com tanta coisa para se escrever, apetece fazê-lo sobre os tempos em que nada havia, quando tudo parecia escrito e qualquer ideia era repetida. As folhas morriam riscadas. Se houvesse um cemitério desses tempos, era lá que nascia o vento, entre as lápides da imaginação. Quando há coisas de mais parece que nada interessa. Mais depressa se lê uma folha em branco do que outra cheia de nada.

Sunday, May 13, 2007

Eu, Astérix: Eustérix

Fui a Roma ser romano. Confirmei o que toda a gente sabe, vi de perto, de mais, destrezas automobilísticas inimagináveis em Lisboa. Dei por mim no circo máximo de inversões de sentido em cima de passadeiras: o espanto de atravessar a rua e esperar um carro de frente, não do lado. Sabe o que diz quem diz que por lá só há dois peões: rápidos e mortos. Fantástico, também, ver um autocarro num semáforo ser ultrapassado pelo passeio. Admirável, por último, que pelo menos o autocarro tenha realmente parado no vermelho. No primeiro dia, achei singular. Nos outros, dei por mim a mandar à fava mais romanos que o Astérix. Sou de mandar à fava: «Vão mas é à fava», digo-lhes eu, sou danado.

No mais, aconselhável. Vinte milhões de pessoas visitam anualmente a cidade, parece que toda a gente já lá tinha ido menos eu. Ainda assim: recomendo. Uma cidade em cima das memórias do império, de pedras e colunas nas margens dos rios de turistas, um passado de fracturas expostas num corpo hoje moderno. Parece uma Roma em permanente dor, partida, eterna. Entre ela o alívio prometido do Vaticano, de um Papa que fala aos domingos da altura de um oitavo andar, mal se vê lá de baixo da praça, máquinas no zoom, gente que não sabe muito bem se acena ou diz adeus. Se o deixassem, parece-me, falaria às pessoas de cima de uma nuvem, ele próprio esticado lá de cima, quase quase a tocar o dedo de Adão, num tecto pintado ali ao lado, por esse que já foi tartaruga-ninja e hoje é vocalista dos Delfins.

Wednesday, April 25, 2007

Favita, o pombo de corrida alentejano


O meu dono convida as visitas a entrar-lhe na casa, atravessar a luta dos alguidares, as prateleiras dos móveis velhos, indecisas entre ceder ou suportar mais um ano de objectos acotovelados, fotografias paradas no tempo, círculos de pó das coisas que se foram embora, chateadas com aquilo.

«Venham por aqui que é melhor», sugere o meu dono, penteado pelo capacete da mota, enquanto empurra para a varanda. Eu na gaiola, arrulho, observado pela desconfiança desta gente nova que me desconhece conquistas, sou um campeão.
«Olhem-me esta vista, ninguém ma tira. O resto está velho, desarrumado, eu sei, desculpem-me lá», pede ele, coçando a cabeça. O capacete faz-lhe cócegas, viver sozinho resulta nisto: tudo se desarruma, coisas, cabelos, pensamentos. Os dias ficam, eles mesmos, desarrumados: às vezes começam de noite e acabam pela manhã. As tardes, aqui, no calor, estão sempre no mesmo sítio.

Lá fora, o Alentejo, desviando a roupa molhada no estendal e as meias rotas que talvez ninguém note, estão árvores bronzeadas, um azul da barragem do Maranhão muito ao longe, continuação do céu, para o outro lado: as casinhas baixas de Avis.

O meu dono acredita que o melhor que tem para oferecer às visitas, o melhor da sua casa, é o que está fora dela, mas engana-se: o melhor é quem está lá dentro.

E eu, Favita, parece que é isso que me chama quando sobrevoo a casa no final da prova, assobiando, rolando milho num púcaro. «Anda, Favita, anda para casa, acho que hoje ficamos em primeiro, anda campeão, 650 quilómetros em sete horas é o melhor tempo de sempre, anda Favita», ouço-o. E desço, saca-me a anilha rosa da pata, tenho quatro números desta vez, sou o 1756, cola a anilha num relógio grande com tanto pó que as horas e os tempos têm de ser adivinhados. Terminei em segundo, afinal.

Sei de pássaros que fogem das gaiolas. Se calhar migram para as grandes cidades, onde as aves, contou-me um pardalito, descansam em monumentos e há comida pelo chão. E eu, aqui no Alentejo, que me soltam tão longe e volto sempre.

Tuesday, April 24, 2007

Eusébio regressa


Confesso que durante o internamento de Eusébio, com as conferências diárias para a imprensa, vivi na esperança de ouvir um dos médicos dizer:

- Sim, Eusébio está a recuperar bem e pensamos até que pode jogar domingo.

Mas não, parece que está bem.

Thursday, April 19, 2007

O Colosso de Cacilhas

Rosnam hordas de antanho a abrandarem navegações no Tagus. O rio, hostil, quase descansa as suas correntes e ordena aos ventos que não soprem favoravelmente os estranhos. Remem, porcos. A neblina cobre as margens e os sons vêem-se melhor do que as visões, pois estas não se esticam além de três palmos. Acima, tão longe, para lá da curva das brisas, as feições disformes do Colosso de Cacilhas, tão disformes que quase não são feições, oitenta metros acima das vagas da barra e sobranceiras sobre as próprias nuvens. Os homens rendem as armas carcomidas pela ferrugem, entopem-se de medo, olham-se, bêbados com a realidade. É a primeira vez nas paragens e há gente à espreita sem que se saiba de onde.

Assombrosa a visão do Colosso, construído entre 340 e 320 a. C, magnificente alucinação de bronze, com um descomunal pé no Ginjalium e outro em Alcantarium, cidades penhoradas no esplendor comercial da magnânime Cacilheirumaran, de onde todas as estradas de mar e terra partem. Na urbe dos príncipes-poetas, as mulheres desmaiam aos pés dos fidalgos das palavras mágicas, embevecidas pelas rimas e pela profundidades das coisas, mais fundas do que os abismos desconhecidos do mar, que, dizem os sábios, permitem aos ousados que neles mergulhem passar de um oceano para outro oceano do Mundo Achado.

Acostam lentamente os plebeus vindos de lugares sem nome. Apresentam trapos e medo, corteses à medida que passam entre as pernas do Colosso. À sua espera ninguém, de tão inofensiva parecença. As esposas riem-se das tristes figuras dos visitantes, abraçadas aos braços e pernas fortes dos príncipes-poetas. Tratam as visitas como homens menores, cães, doentes.

Conta-se que um cataclismo dizimou Cacilheirumaran, Ginjalium e Alcantarium e que as ondas encharcaram a afortunada terra dos príncipes-poetas. Hoje, 2007, ouvem-se tantas vezes sons que borbulham debaixo do rio, entre lodos e lamas, nem os mais corajosos peixes se avizinham dos pedaços de bronze, morrem longe.

Avisa o Oráculo que o Colosso ressurgirá da água para voltar a erguer-se entre as margens do Tagus, arruinará a ponte que hoje o substitui, fundará as cidades das lendas, Almadacrulium, Margemsuliacrum e Daweaselaquis. Voltará a assumir-se como prodígio dos mundos, no dia sete do sete de dois mil e sete. Tremei, mal-cheirosas hordas de antanho.

Tuesday, April 17, 2007

Caro Pedro Abrunhosa


Alguém, por favor, lhe dê a conhecer estes endereços, para que, de vez, lhe levem os fantasmas e lhe digam onde é a estrada.
Do mais agradecido que pode haver,
Lunatic on the grass.

Saturday, April 14, 2007

Sou imortal, evidentemente

Sou imortal até que me provem o contrário. Falta-me a noção de que vou morrer, julgo que o tempo é uma coisa que só vai começar a contar a partir do momento em que estiver realmente velho, em que me doam coisas, em que me falte força e memória. Só sinto que falta pouco para que o tempo comece a ser, enfim, o tal tempo de que me falam.

Acho mesmo que um dia destes alguém com dois metros e um rasgão cosido na garganta me vai dizer, do alto da sua espada ainda maior: «Immortal, I am here for the Gathering, there can be only one.» Nessa altura terei mesmo a certeza de que sou imortal, mesmo que, impreparado para luta de tamanha envergadura, morra no instante seguinte com a cabeça a rebolar no chão.

De momento, a única prova que tenho é o facto de não ter morrido. Prefiro ser assim: ter a ilusão de ser imortal a ter a certeza de que o sou realmente e deixo de ser logo a seguir, com a ignorância, vermelha e a gotejar da espada do outro imortal, confirmada.

Insinuar um galão

Miúdo, pedir namoro era complicado. Exercitava frases, arqueamento de mãos, direcção dos olhos, proximidades, cheiros, se antes ou depois das aulas. Crescido, não há amor que se peça, o namoro insinua-se.

O galão, nas pastelarias, jamais se pode insinuar, tem mesmo de ser solicitado. Talvez me engane: é servido num copo de vidro grosso; se o despejarem numa chávena grande passa a meia-de-leite, mantendo-se o conteúdo, contudo alterando-se a forma; pode, ainda, ser um garoto, se em chávena de café.

Até aqui ainda me situo. No fundo, transpondo o momento, esta é apenas a fase em que se decide a que rapariga pedir namoro. Queria aquela, assim como geralmente quero um galão e quero lá saber da meia-de-leite ou do garoto e do poder de sedução das suas chávenas grandes ou pequenas.

As dificuldades adensam-se: de máquina ou do outro, perguntam-me. Nem sei que responder. Só me lembro de ter ficado assim quando ela, tão novinha, me disse que gostava de mim, mas que não dava. «Até gosto de ti, mas agora não dá», memorizei dramaticamente.
Há pior: geralmente queria galão morno mas, por vir sistematicamente a escaldar, achei que não valia a pena especificá-lo.

De modo que a saborosa mistura de café e leite me chega num copo de vidro, sem que eu saiba se de máquina ou do outro e eternamente a ferver como o inferno. Vai ser sempre assim até que eu saiba insinuar um galão. Até lá, gosto mas acho que não vai dar.

Sunday, April 8, 2007

Batman contra Cotton-Man

Um amigo, na faculdade, onde a criatividade está, como se quer, virada do avesso, criou o Cotton-Man, super-herói que disparava mortíferas bolas de cotão recarregadas nos bolsos dos casacos.
Outro amigo, de menos tempo, gasta muito em livros de banda desenhada, descobre-os perdidos nas feiras, limpa-lhes pó, protege-os das nódoas de gordura e das migalhas como do diabo, sabe o que é um número raro, entende serem forma de arte maior. Emprestou-me, num dia destes, um do Batman, de argumento e traço de Frank Miller, chamado The Dark Knight returns, um clássico, garantiu-me. Implorou-me que não lhe dobrasse a lombada e que não me atravesse a lê-lo enquanto comia.
Pessoalmente, li muita BD quando miúdo, parei de o fazer ao ritmo do crescimento e aceitei essa tendência da coisa: os adultos deixam de ler banda desenhada, desiludem-se com as possibilidades que ela abria. O que antes parecia existir num outro espaço e tempo, deixa, simplesmente, de ser possível.
Ainda assim, esforço-me por preservar o fascínio pelos senhores das capas e uniformes, pelos traumas e pela solidão causada pelas vidas duplas. Curiosa dicotomia: ser duas pessoas e ao mesmo tempo só.
Vejo os filmes. Gosto do Batman — lembrei-me da preferência agora que tenho o livro marcante para ler —, porque não tem poderes especiais, é humano, engenhoso. E tem, inegavelmente, o fato com mais pinta, o carro mais impressionante e uma ligação com uma miúda que se veste de gata.
Acho que também isso mudou em mim: quando era miúdo ambicionava super-poderes; hoje, adulto, quero ser humano e engenhoso, ter um fato com pinta e acharia muito bem se as miúdas andassem vestidas de gata. Por mais Andrew-Lloyd-Webberiano que isso me torne. O que em miúdo era carnavalesco, ganha, estranhamente, carga erótica a caminho dos trinta anos.
Mas ser o Cotton-Man, caraças, atirar bolas de cotão aos gajos, aos maus, pum pum pum pum, fogo, isso é que era.

Tuesday, April 3, 2007



I want to believe, diz o outro que passa a vida atrás de étês e depois rouba esta Tea Leoni de outro mundo.


Sunday, March 25, 2007

Importância dos pêlos

Era criança e jurava que o meu pai vinha do urso e não do macaco, tal o tapete que lhe cobria peito e costas. O pêlo intriga-me. Li que no futuro iremos perdê-lo, é desnecessário, tem insignificante influência no aquecimento corporal, é um resto do que fomos, grudado até que varrido pelas baforadas dos milénios vindouros. Nem as sobrancelhas sobrarão na raça, seremos pálida mancha de pele.

Acho, assim: tenho menos e sou mais evoluído que o meu pai, que por si era mais evoluído que o urso. Este atalho genealógico, convenho, desabona-me. Acontece que o cabelo ainda é, entendo, importante magneto da espécie. Reparem, tudo junto, como pode condicionar a reprodução: penteado, pêlo no sovaco, nas pernas, na púbis, sobrancelha de fino risco, rímel na pestana. Não há pêlos inferiores, todos participam.

Da minha parte: cabelo curto, rapado ou comprido, barba feita ou rarefeita, caracóis no peito, ter ou não nas costas, são parâmetros que atraem ou repelem a fêmea. Em parte, somos pêlos. Quando se forem, passaremos a ponte que segue da identidade para o simplesmente idêntico.

Relembro, a propósito de identidade, que um puto se sente homem pela primeira vez ao ver um urso que faz a barba de manhã e nos põe espuma na bochecha para, depois, raspar a lâmina na pele imberbe. O pai, de seguida, sai para o trabalho, a mãe dorme. Não há problema, porque fica o outro urso da casa a tomar conta, ainda que tenha seis anos. Que o futuro não me leve os pêlos.

Saturday, March 24, 2007

Eu, maior português de sempre

Tenho cá para mim que se Afonso vencer a votação do maior português de sempre significa que, não sendo Afonso originalmente português – ninguém nasce no país que funda — não houve, jamais, um grande português. Logo, aqui me vendo: não sou alto, tenho um metro e setenta e nove, nem pesado, peso 78 quilos, nem assinalavelmente bonito, por muito que a minha mulher e a minha mãe se esforcem em desmentidos e direitos de resposta. Inclinam-se ao sabor das minhas opções capilares, segundo percebo.

Também estou longe de ser verdadeiramente brilhante, brilho intensamente mas só às vezes; tal como estou a milhas de ser considerado estúpido; sou, justifico-me, distraído e tenho o córtex talhado para grandes questões do universo o que me leva a atenção que deveria dispensar ao mundano.

Por estas minhas qualidades transversais, se vencer Afonso e, repito, nunca tiver existido um grande português, é justo cingir a votação ao melhor português médio de sempre. Nessa escolha serei muito competitivo. Não se deve, contudo, confundir com o melhor médio português de sempre, Rui Costa, D. Rui Costa, D. Rui Costa I.

Bem, isto faria tudo sentido não fora existir a aldeia de Folgosinho, a onze quilómetros de Gouveia, como quem sobe a Serra da Estrela. Lá se conta que, desmentindo os viseenses, o lusitano Viriato tem raízes. Se as tem ignoro, porém confirmo a existência de uma estátua onde pode ler-se «A Viriato, natural e fundador de Folgosinho».

Prova isto então que, ao contrário do que pensava quando comecei a escrever este texto, é mesmo possível nascer-se no local que se funda e, logo, Afonso pode mesmo ter sido português antes de ter inventado Portugal. Sou mesmo um português médio, desilusão.

Prolixo, verboso e gongórico

Ouvi alguém dizer a uma plateia: «Ocasionalmente, se me torno prolixo, acabo por ser verboso e gongórico e não me entendem.»

Espantei-me e apeteceu-me dizer:
- Às vezes, quando falo muito tempo, acabo por exagerar e por usar demasiadas palavras, mas felizmente entendem-me sempre.

Friday, March 23, 2007

Não tenho assim tantos amigos

O comando sem fio da nova Play Station 3 detecta movimentos oscilantes e é possível ligar sete deles à consola. Não tenho assim tantos amigos. Custa 600 euros e também acho que não tenho assim tanto dinheiro. O que tenho são saudades daqueles jogos em que havia duas raquetas que só subiam ou desciam na esquerda e na direita do ecrã e uma bolinha que ia de uma para a outra. Só davam para duas pessoas e nunca senti falta de mais. Custava menos de 600 euros. Não sou maldizente, aceito o futuro, gosto dele, admiro-o, no entanto acontece que é mesmo a sério: não tenho assim tantos amigos e estimo tanto a tecnologia que vem a caminho como aquela que há muito se foi. Sou uma espécie de meio-termo tecnológico, sou uma Play Station 1,5. Gabo-me de possuir um gravador de DVD, eu, que tinha dificuldades em deixar o vídeo a gravar. Sou meio a cores, meio a preto e branco, meio home cinema, meio som mono, meio comando à distância meio palmada à laia de Alcântara na lateral da televisão para ajustar a imagem. As televisões novas, enfezaditas, nem cabedal têm para levar uma cacetada.

Thursday, March 22, 2007

Óculos de sol graduados


Não percebes, às vezes não entendes, sejas quem fores. Se ganhasse o euromilhões, a única coisa que faria era comprar óculos graduados, que sou míope, daqueles de sol. Incomoda-me isto de precisar de óculos para chegar às coisas que estão longe e ao mesmo tempo precisar de outros que me protejam de algo tão longe como o sol. Sou sensível. Sensível, que é isso de ser sensível, perguntas. É quando uma pulga a pousar num cão nos parece uma bomba atómica, dizia esse tal de Jeff Buckley, que para mim não era mais do que um mendigo no metro, na estação de Arroios, a cantar clássicos de Natal com um órgão. Sem esses óculos que desejo rebentam-me bombas atómicas nos olhos. Se ganhasse o euromilhões comprava apenas isso: óculos de sol graduados, porque assim que comprasse outra coisa digna de tanto dinheiro deixava de ser eu. Só quero o que me falta e precisava de uns óculos de sol graduados, que me ficariam em cento e tal euros. E de uns ténis, vá, que estes descolaram aqui, se calhar num voo para o sol. Isto sem o sol dava-me muito mais jeito. Tu compravas o quê? Compravas coisas que nem sabes bem o que são?

Saturday, March 17, 2007

Outras cafeínas

Café fascina-me. Chegou ao fascinar-me ao ponto de beber sete, percebia-o quando em vão procurava na carteira uma nota de cinco afinal esquartejada. Ainda não percebi se gosto realmente, ainda que me fascine. Alguns sabem-me bem. Todavia há um, diariamente, que me tiram queimado. Parece-me remédio, bebo-o de trago. Ir ao café é para lá de bebê-lo, todos os reconhecem. Quem nunca apostou, um dia, num vamos beber cafezinho como sinónimo de apetece-me ver-te rodar a chávena entre os dedos? Aposto que depois de mexido por ti o café dispensa açúcar. És um pauzinho de canela.

Wednesday, March 7, 2007

Admirável mau gosto



Antoni Gaudi, além de, coitado, ter um nome ridículo, é culpado de quase tudo. O Parque Guell desilude até as crianças, porque, reclamam, é um parque e não tem baloiços. Depois, entendo que colar azulejos e vidrinhos coloridos em edifícios de formato duvidoso, eventualmente ruinosos ao primeiro repelão de terramoto, é, vá lá, disforme. Chamam-lhe modernismo catalão, ainda hoje. Têm piada estes movimentos artísticos que deixam o tempo em suspenso, a atropelar tudo. Gosto especialmente do pós-moderno, que não sei bem o que é; ou mesmo do futurismo. Têm o seu quê de vaidosa afronta, concedo.
Em La Pedrera, conta-se que um inquilino questionou uma vez Gaudi a propósito de um piano que não fazia sentido na sala, porque esta não tinha uma única parede direita. Gaudi sugeriu-lhe um violino. Disto gosto: tinha sentido de humor e, nesse sentido, vale tudo, até aquilo da Sagrada Família. Ainda não percebi se a estão a completar ou a parti-la aos bocados para fazer de novo. Fica numa estranha fronteira do espanto. Simples: espantoso em português é positivo, mas em castelhano é exactamente o contrário, algo negativo, um antónimo. E mais: em catalão, Gaudi significa prazer. Tem relação com o nosso gáudio. Antónimo Gáudio, de admirável mau gosto. Se alguém não gostar deste texto que lhe cole vidrinhos às cores que talvez se leia melhor. Chamem-lhe, depois, pós-texto.

Saturday, February 17, 2007

Quem és tu, rameira?



Yasmine Bleeth era tudo o que me faltava então: mamas. Fui procurá-la, navegar em águas que julgava vivas. Dei com isto: esta agarrada com ar de comida, erodida. Parece que anda assim há anos, andou por clínicas. Maré vazia na minha praia das memórias.

Friday, February 16, 2007

Apanhados


Quando saíamos, a suspeita era a mesma. Na conversa que desce as escadas até à rua: desconfio que aqueles dois, depois de nós sairmos.
Mas certezas eram miragens. À noite, nos regressos: lá estavam ele, o tubarão, e ela, a ovelha, de olhares de peluche, desprovidos de vida e culpa.
Num dia destes, na escada, decidimos subir, com a máquina de fotografar no coldre, pistoleiros aos tiros às dúvidas. Foram apanhados, sacanas.

Monday, February 12, 2007

Pink e Pink Floyd numa discussão conjugal



You took my hand, you showed me how
You promised me you'd be around
Uh huh, that's right

Relax.
I need some information first.
Just the basic facts: Can you show me where it hurts?

If someone said: "Three years from now You'd be long gone."
I'd stand up and punch them out'Cause they're all wrong
I know better'Cause you said "forever and ever"Who knew?

There is no pain, you are receding. A distant ships smoke on the horizon. You are only coming through in waves. Your lips move but I cant hear what youre sayin. When I was a child I had a fever.My hands felt just like two balloons. Now I got that feeling once again. I cant explain, you would not understand. This is not how I am. I have become comfortably numb.

Sunday, February 11, 2007

Lisboa Tirith




Ser turista em Lisboa foi a primeira vez. Amarrei a burra no largo do Carmo, onde os turistas desesperam por cheirar cravos e uma guia baixinha de chapéu ensina alemães: «He was like Hitler but not as bad.» No elevador, bebi um euro e meio de café entre espanhóis. Desconfio que apareci, sem querer, em cinco fotografias à paisagem. Fiz parte da paisagem. Hoje devo estar, além de estar aqui, numa moldura em cima de um móvel que ao fundo tem o castelo de São Jorge e eu, em primeiro plano turvo, sem que os espanhóis que me levaram num sorriso digital saibam quem sou. Paguei o café a um brasileiro, percebi por um panfleto que o estabelecimento se chama Heaven of Lisbon, inglês. Virei-me e afastei-me ainda mais de casa, que afinal é tão perto. As ruínas do Convento do Carmo, macacos me mordam, vistas dali, perspectiva rara, são Minas Tirith. Lisboa Terra Média e eu a pensar que personagem seria se me escrevessem três volumes disto.

Rocky Balboa ideia

«Nem todo o oceano de Neptuno lavaria o sangue das mãos desse Rocky», diria MacBeth. Eu, pessoalmente, acho que sim, que é à maneira. É humano, tem personagem, pessoal. O actor, todos sabem, é tão mau que até isso o torna humano. E os humanos fazem falta, excepto aqueles que cantam António Variações.

Blog soa-me a náusea

A palavra blog soa-me a náusea, recorda-me um diálogo desesperado com a sanita, de joelhos, quase uma reza, a jurar que é a última vez. Blog, blog, nunca mais bebo tanto. Blog. Mas sobre náuseas, convenhamos, até Sartre já escreveu, pelo que não pode ser nefasto a esse ponto. Dei por mim a atribuir-me importância suficiente para delimitar este cantinho e escrever sobre o que se vai passando. Às vezes apetece-me contar coisas que me aconteceram um dia destes e não conto, porque me apetece escrevê-las ainda mais do que contá-las. Pois então: um dia destes.