Sunday, April 26, 2009
Sunday, April 19, 2009
Havia um teclado que só tinha números e não tinha letras, pelo que as frases que dele saíam para o ecrã nada mais eram do que contas mal feitas. Mas pior do que isso, quem as lia era um abutre vegetariano, que só comia alfaces estragadas, pelo que ao perceber que ali havia qualquer coisa que não batia certo, foi direito à parede e começou às cabeçadas até que o vizinho do lado, que estava sentado numa nuvem de fumo a fumar cigarros de ananás, foi pegar no cabo da vassoura, varreu o chão que já precisava e de repente atirou-se da janela do rés-do-chão, mas a queda até ao piso menos quatro do edifício partiu-lhe uma perna. Posto isto, ao chegar ao hospital, arrancou a cabeça da porteira, que era feita de chocolate, mas não ficou muito admirado, porque no céu debaixo dele passavam gaiolas sem pássaros. Os pássaros, evidentemente, estavam no lago a fugir dos peixes voadores que queriam era aprender a nadar no alcatrão ao lado das bicicletas.
Para não variar, chegou a polícia e disse: «Está tudo preso.» Eu, que ia apenas a passar em forma de sombra, apaguei as luzes da rua e, sem luzes, ninguém me podia ver, porque eu era uma sombra e as sombras, mesmo que escrevam em teclados que só têm números e não letras, que ironia, só aparecem quando há luzes e não faz por isso sentido que alguém diga que tem medo de sombras que à noite lhe aparecem no quarto escuro. Nisto, passa o comboio que ia para a Patagónia, cheio de trapezistas russas e de jogadoras de voleibol italianas, contudo a dizerem, em francês, que iam parar em todos os apeadeiros e que a viagem ia ser longa. Caramba, pensei eu, que só era visto porque havia um candeeiro a petróleo que, sacana, se escondia atrás de mim para os outros me verem. Entrei, porém, no vagão e lá dentro, afinal, nem trapezistas nem voleibolistas, apenas interruptores com dedadas de mandril e uns cães enfezados que diziam uns para os outros que os ensinamentos de Heiddegger não eram nada fáceis de dividir em momentos. E dizia o outro cão, já chateado com tanta parvoíce: «Miau, mas é, que vocês nem falar sabem, quanto mais escrever nestes teclados de números!»
Em chegando à estação, estava lá toda a gente do Mundo inteiro, um bocado apertados porque são muitos e a estação tinha uma sala de espera pequena, mas eu, assim a atirar para o sombreado, agradeci a todos a presença, porque a viagem, parecendo que não, tinha durado bem mais do que um aguaceiro. E alguém, lá no meio dos alguéns, me disse: «Lá estás tu a confundir o tempo com a meteorologia, porque os relógios não dão dias de sol, caraças!» Ficaram à espera da resposta, mas achei que o melhor era gritar golo, todavia disseram-me que tinha sido claramente falta de um telefone com fios que julgava que era um telemóvel e andava de um bolso para o outro a fazer rasteiras com o fio a julgar que ninguém dava por ele. O cabrão! Fomos todos embora, que a sala era, relembro, apertada, e lá fora começámos a respirar copos de água e um forreta disse: «Eu não pago uma rodada a esta malta toda, que ainda me custa alguns dois livros feitos de espuma de Super Bock.» Bem, foi tal a confusão que quando dei por mim estava aqui e a pensar numa maneira de voltar.
Para não variar, chegou a polícia e disse: «Está tudo preso.» Eu, que ia apenas a passar em forma de sombra, apaguei as luzes da rua e, sem luzes, ninguém me podia ver, porque eu era uma sombra e as sombras, mesmo que escrevam em teclados que só têm números e não letras, que ironia, só aparecem quando há luzes e não faz por isso sentido que alguém diga que tem medo de sombras que à noite lhe aparecem no quarto escuro. Nisto, passa o comboio que ia para a Patagónia, cheio de trapezistas russas e de jogadoras de voleibol italianas, contudo a dizerem, em francês, que iam parar em todos os apeadeiros e que a viagem ia ser longa. Caramba, pensei eu, que só era visto porque havia um candeeiro a petróleo que, sacana, se escondia atrás de mim para os outros me verem. Entrei, porém, no vagão e lá dentro, afinal, nem trapezistas nem voleibolistas, apenas interruptores com dedadas de mandril e uns cães enfezados que diziam uns para os outros que os ensinamentos de Heiddegger não eram nada fáceis de dividir em momentos. E dizia o outro cão, já chateado com tanta parvoíce: «Miau, mas é, que vocês nem falar sabem, quanto mais escrever nestes teclados de números!»
Em chegando à estação, estava lá toda a gente do Mundo inteiro, um bocado apertados porque são muitos e a estação tinha uma sala de espera pequena, mas eu, assim a atirar para o sombreado, agradeci a todos a presença, porque a viagem, parecendo que não, tinha durado bem mais do que um aguaceiro. E alguém, lá no meio dos alguéns, me disse: «Lá estás tu a confundir o tempo com a meteorologia, porque os relógios não dão dias de sol, caraças!» Ficaram à espera da resposta, mas achei que o melhor era gritar golo, todavia disseram-me que tinha sido claramente falta de um telefone com fios que julgava que era um telemóvel e andava de um bolso para o outro a fazer rasteiras com o fio a julgar que ninguém dava por ele. O cabrão! Fomos todos embora, que a sala era, relembro, apertada, e lá fora começámos a respirar copos de água e um forreta disse: «Eu não pago uma rodada a esta malta toda, que ainda me custa alguns dois livros feitos de espuma de Super Bock.» Bem, foi tal a confusão que quando dei por mim estava aqui e a pensar numa maneira de voltar.
Flatulência, uma conspiração
Se há coisa que os meus textos têm de muito razoável é que, por mal que soem ou por pouco sentido que façam, não cheiram.
Talvez por essa característica inodora destas minhas linhas me atreva a escrever sobre algo que num dia destes pensei, solitário, numa rua de Lisboa: será que os outros quando caminham sós arriscam, aqui e ali, peidar-se? Ou serei uma besta que ousa fazê-lo, admitindo a via pública por privada; e os outros, mesmo sozinhos, jamais cedem à tentação da flatulência?
Ignoro.
Não valeria a pena discorrer sobre a evidência dos gases que entram e dos que se formam dentro e da forma como se expelem; nem lembrar as variantes culturais do peido, aqui ofensa, alhures elogio.
O que vale a pena é perceber por que razão de um momento para o outro me encheram os pneus do carro com azoto, penso eu que tentando insinuar que o meu automóvel, de velhinho, se peida pelas rodas.
- Vantagens de encher os pneus de azoto? Três – disse-me o mecânico da Norauto – mantêm firmeza e desgastam-se menos, esvaziam-se mais lentamente e fazem menos barulho.
Aceitei. Porém continuo sem saber se os outros carros, mesmo sozinhos na garagem, se esvaziam sem ninguém saber pelas câmaras de ar.
Talvez por essa característica inodora destas minhas linhas me atreva a escrever sobre algo que num dia destes pensei, solitário, numa rua de Lisboa: será que os outros quando caminham sós arriscam, aqui e ali, peidar-se? Ou serei uma besta que ousa fazê-lo, admitindo a via pública por privada; e os outros, mesmo sozinhos, jamais cedem à tentação da flatulência?
Ignoro.
Não valeria a pena discorrer sobre a evidência dos gases que entram e dos que se formam dentro e da forma como se expelem; nem lembrar as variantes culturais do peido, aqui ofensa, alhures elogio.
O que vale a pena é perceber por que razão de um momento para o outro me encheram os pneus do carro com azoto, penso eu que tentando insinuar que o meu automóvel, de velhinho, se peida pelas rodas.
- Vantagens de encher os pneus de azoto? Três – disse-me o mecânico da Norauto – mantêm firmeza e desgastam-se menos, esvaziam-se mais lentamente e fazem menos barulho.
Aceitei. Porém continuo sem saber se os outros carros, mesmo sozinhos na garagem, se esvaziam sem ninguém saber pelas câmaras de ar.
Saturday, April 18, 2009
Pirataria
Pá, aqueles piratas da Somália fazem como para piratear: aquilo os gajos, pá, vão a certos e determinados sites e sacam os barcos sem pagar nada em vez de pagar os barcos que estão à venda nas lojas.
Tuesday, April 7, 2009
Tratado de Ana Malhoa
Pre scriptum: não sei porque justifico as minhas ausências se ninguém me dá pelas faltas, mas ainda assim: preguiça que durou um mês e agora acabou.
Tratado de Ana Malhoa, agora sim, uma conversa séria e sem entradas rotas em latim como pre scriptum.
Estava eu numa lufa-lufa a pesquisar pela internet fora sobre José Malhoa, o pintor, quando fui parar a uma intervenção de Ana Malhoa, a pintada.
É mentira, busquei coisas sobre Ana Malhoa, mas achei que esta seria a melhor justificação possível, dizer que procurava a arte de José Malhoa, que não o pai das 24 rosas numa jarra, ainda que seja também artista. Enfim: art is what you can get away with, dizia Andy Warhol, mas não nos percamos.
Respeito Ana Malhoa mais pelas formas do que pelos conteúdos, mas respeito.
Agora, de todas as formas que, sinto, dona Malhoa me poderia surpreender, jamais pensei que pudesse enriquecer-me o vocabulário, sobretudo numa vertente que eu tanto venero, como o vernáculo.
«Trataram-me como se fosse uma rasgada, como se fosse uma prostituta, mas sou uma artista», rebelou-se Malhoa — escrevi rebelou-se, de rebelar, de insurgir; não escrevi revelou-se — a propósito de uma divergência antiga com um programa de nome Portugal no Coração, que, dizia ela, a não tinha convidado para actuar por pressões de preconceituosos puritanos e, acrescento, aquilo a que tecnicamente se chamam parvos.
O que está aqui em causa para mim, todavia, é o uso do termo rasgada, que considero reformador. Logo eu, que me julgo competitivo ao nível da ofensa, sobretudo escrita, porque oralmente sou mudo assim que estala uma altercação e não consigo falar quando me enervo e é só por isso que desato aos tiros ou, na falta de balas, atiro pedras.
Logo eu, relembro, jamais ouvira a expressão «uma rasgada». Percebi, ou julgo ter percebido, o alcance do termo e é sobre ele que me debruço agora, deixando a oradora, dona Malhoa, para trás, porque afinal só serviu para me introduzir aqui. Estranha escolha de termos, esta última.
Rasgada é, talvez, a injúria mais vanguardista que escutei não apenas na televisão, mas também na vida profissional ou pessoal. Rasgada. E ao dizer escutei não quero dizer que a mim tenha sido dirigida, apenas que a tenha ouvido. Acho brilhante como ofensa, a força e a duração do érre, a imaginação de mão na anca, a peixeirada de Bolhão ou Ribeira. Soa-me a gritaria de alemães que, na minha ignorância, não entendo e julgo estarem sempre a discutir ou a tentar desesperadamente cuspir batatas a ferver que alguém lhes enfiou à bruta na boca.
Pelo que comecei a usar o termo rasgada indiscriminada e injustamente. Por estes dias, sou capaz de dizer «essa gaja é uma rasgada» à mais inocente das senhoras que apareça na televisão, só pelo simples prazer de saborear a expressão em toda a sua sonoridade e significado.
Jamais imaginei que alguém que ainda há poucos anos soletrava o a e i o u numa canção me enriquecesse desta forma o vocabulário. Quando à aplicabilidade da expressão a quem ma tornou possível, nada posso concluir, evidentemente. Até porque quando procuro Malhoa na net é sempre em busca de óleo sobre tela.
Tratado de Ana Malhoa, agora sim, uma conversa séria e sem entradas rotas em latim como pre scriptum.
Estava eu numa lufa-lufa a pesquisar pela internet fora sobre José Malhoa, o pintor, quando fui parar a uma intervenção de Ana Malhoa, a pintada.
É mentira, busquei coisas sobre Ana Malhoa, mas achei que esta seria a melhor justificação possível, dizer que procurava a arte de José Malhoa, que não o pai das 24 rosas numa jarra, ainda que seja também artista. Enfim: art is what you can get away with, dizia Andy Warhol, mas não nos percamos.
Respeito Ana Malhoa mais pelas formas do que pelos conteúdos, mas respeito.
Agora, de todas as formas que, sinto, dona Malhoa me poderia surpreender, jamais pensei que pudesse enriquecer-me o vocabulário, sobretudo numa vertente que eu tanto venero, como o vernáculo.
«Trataram-me como se fosse uma rasgada, como se fosse uma prostituta, mas sou uma artista», rebelou-se Malhoa — escrevi rebelou-se, de rebelar, de insurgir; não escrevi revelou-se — a propósito de uma divergência antiga com um programa de nome Portugal no Coração, que, dizia ela, a não tinha convidado para actuar por pressões de preconceituosos puritanos e, acrescento, aquilo a que tecnicamente se chamam parvos.
O que está aqui em causa para mim, todavia, é o uso do termo rasgada, que considero reformador. Logo eu, que me julgo competitivo ao nível da ofensa, sobretudo escrita, porque oralmente sou mudo assim que estala uma altercação e não consigo falar quando me enervo e é só por isso que desato aos tiros ou, na falta de balas, atiro pedras.
Logo eu, relembro, jamais ouvira a expressão «uma rasgada». Percebi, ou julgo ter percebido, o alcance do termo e é sobre ele que me debruço agora, deixando a oradora, dona Malhoa, para trás, porque afinal só serviu para me introduzir aqui. Estranha escolha de termos, esta última.
Rasgada é, talvez, a injúria mais vanguardista que escutei não apenas na televisão, mas também na vida profissional ou pessoal. Rasgada. E ao dizer escutei não quero dizer que a mim tenha sido dirigida, apenas que a tenha ouvido. Acho brilhante como ofensa, a força e a duração do érre, a imaginação de mão na anca, a peixeirada de Bolhão ou Ribeira. Soa-me a gritaria de alemães que, na minha ignorância, não entendo e julgo estarem sempre a discutir ou a tentar desesperadamente cuspir batatas a ferver que alguém lhes enfiou à bruta na boca.
Pelo que comecei a usar o termo rasgada indiscriminada e injustamente. Por estes dias, sou capaz de dizer «essa gaja é uma rasgada» à mais inocente das senhoras que apareça na televisão, só pelo simples prazer de saborear a expressão em toda a sua sonoridade e significado.
Jamais imaginei que alguém que ainda há poucos anos soletrava o a e i o u numa canção me enriquecesse desta forma o vocabulário. Quando à aplicabilidade da expressão a quem ma tornou possível, nada posso concluir, evidentemente. Até porque quando procuro Malhoa na net é sempre em busca de óleo sobre tela.
Sunday, March 1, 2009
Monday, February 23, 2009
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7: o segredo.
Fui despedido da Sociedade do Euromilhões vigente entre os meus amigos. Ainda que a justa causa para esta desconsideração nunca tenha sido evocada nos termos de uma qualquer lei das Sociedades de Euromilhões, o meu afastamento foi explicado pelos gestores da dita à luz de um alegado facto: a minha chave era idiota e ocupava o lugar de uma outra à partida muito mais capaz de ganhar.
A sugestão semanal que apresentava para o boletim era sempre composta pelos números 1, 2, 3, 4 e 5 e estrelas 6 e 7. Disseram-me que nunca ganharia. Eu argumentei
- A minha nunca ganha, diria mais: as vossas, bem pelo contrário, ganham todas as semanas.
E eles com conversas de probabilidades, os arautos da estatística
- Ninguém se lembra de uma que tenha saído com cinco números seguidos e logo as duas estrelas seguidas também.
Ora bem, eu, apesar de ser um homem das letras – tenho uma caligrafia bem bonita, com consoantes enroladas como ondas na rebentação suave do mar alto e acentos repentinos que são como balas de cravo disparadas pelas espingardas inúteis da revolução – sei também contar até cem e tenho conhecimentos – conhecimentos entre o instintivo e o simiesco – ao nível das especificidades da probabilidade e da estatística dentro da disciplina maior que é a matemática.
Vejamos exemplo clássico: se alguém atira uma moeda ao ar cinquenta vezes e ela cai 49 vezes de cara para cima, qual a probabilidade de no 50.º lançamento da moeda esta cair de coroa para cima? Resposta: cinquenta por cento, metade, um em dois.
Transpondo: se o primeiro número a sair no sorteio for o 1, sobrarão para a segunda bola 49 números e a probabilidade de sair o 2 é exactamente a mesma de qualquer um dos outros 48 que sobram. And so on até ao 5 (além das letras e da matemática, domino igualmente um número considerável de expressões em inglês).
Nunca lhes disse, aos meus amigos, mas aquilo que eles me queriam dizer e não disseram é que a probabilidade de saírem cinco números seguidos é quase infinitamente (reparem como escrevo quase infinitamente e não infinitamente, porque em linguagem matemática são coisas muito diferentes) menor do que a probabilidade de saírem cinco números espaçados.
Isso, contudo, serve pouco para fundamento, pois ainda que afaste a mente de uma opção como a minha, não a aproxima de qualquer outra, porque há todo um universo de possibilidades com números espaçados que, resumindo a coisa outra vez às probabilidades, têm exactamente as mesmas previsões de saída.
Continuei, continuo, a apostar, agora sozinho, na chave 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7, porque, além do mais, me facilita a tarefa de colocar as cruzinhas. Nunca ganhei, é certo, mas os meus estimados amigos, com as suas iluminadas selecções, ainda continuam a ser meus estimados e apenas remediados amigos.
Se fosse possível, gostaria até de registar esta chave, para que mais ninguém a pudesse usar ou, melhor ainda, para sobre ela ter direitos de vencedor se algum dia a matemática me der razão. Fui à Santa Casa da Misericórdia com esta sugestão e disseram-me que a minha chave era idiota. Idiot, em inglês, disse-me a senhora atrás do balcão, a julgar que eu não a percebia.
A sugestão semanal que apresentava para o boletim era sempre composta pelos números 1, 2, 3, 4 e 5 e estrelas 6 e 7. Disseram-me que nunca ganharia. Eu argumentei
- A minha nunca ganha, diria mais: as vossas, bem pelo contrário, ganham todas as semanas.
E eles com conversas de probabilidades, os arautos da estatística
- Ninguém se lembra de uma que tenha saído com cinco números seguidos e logo as duas estrelas seguidas também.
Ora bem, eu, apesar de ser um homem das letras – tenho uma caligrafia bem bonita, com consoantes enroladas como ondas na rebentação suave do mar alto e acentos repentinos que são como balas de cravo disparadas pelas espingardas inúteis da revolução – sei também contar até cem e tenho conhecimentos – conhecimentos entre o instintivo e o simiesco – ao nível das especificidades da probabilidade e da estatística dentro da disciplina maior que é a matemática.
Vejamos exemplo clássico: se alguém atira uma moeda ao ar cinquenta vezes e ela cai 49 vezes de cara para cima, qual a probabilidade de no 50.º lançamento da moeda esta cair de coroa para cima? Resposta: cinquenta por cento, metade, um em dois.
Transpondo: se o primeiro número a sair no sorteio for o 1, sobrarão para a segunda bola 49 números e a probabilidade de sair o 2 é exactamente a mesma de qualquer um dos outros 48 que sobram. And so on até ao 5 (além das letras e da matemática, domino igualmente um número considerável de expressões em inglês).
Nunca lhes disse, aos meus amigos, mas aquilo que eles me queriam dizer e não disseram é que a probabilidade de saírem cinco números seguidos é quase infinitamente (reparem como escrevo quase infinitamente e não infinitamente, porque em linguagem matemática são coisas muito diferentes) menor do que a probabilidade de saírem cinco números espaçados.
Isso, contudo, serve pouco para fundamento, pois ainda que afaste a mente de uma opção como a minha, não a aproxima de qualquer outra, porque há todo um universo de possibilidades com números espaçados que, resumindo a coisa outra vez às probabilidades, têm exactamente as mesmas previsões de saída.
Continuei, continuo, a apostar, agora sozinho, na chave 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7, porque, além do mais, me facilita a tarefa de colocar as cruzinhas. Nunca ganhei, é certo, mas os meus estimados amigos, com as suas iluminadas selecções, ainda continuam a ser meus estimados e apenas remediados amigos.
Se fosse possível, gostaria até de registar esta chave, para que mais ninguém a pudesse usar ou, melhor ainda, para sobre ela ter direitos de vencedor se algum dia a matemática me der razão. Fui à Santa Casa da Misericórdia com esta sugestão e disseram-me que a minha chave era idiota. Idiot, em inglês, disse-me a senhora atrás do balcão, a julgar que eu não a percebia.
Wednesday, February 18, 2009
E eu, que agora com 28 anos é que ando com a ideia de começar a ouvir heavy metal?
- Comprei um DVD de Moonspell.
- E?
- Agora ando numa de começar a ouvir metal, tinha-me lembrado de ti, para me aconselhares umas bandas.
- Ninguém começa a ouvir metal aos 28 anos.
- Bem, tenho aqui uma lista de bandas e talvez me pudesses dizer algo e ...
- ... que bandas?
- Destroyer 666, Brutal Truth, Napalm Death, Arkhon Infaustus, My Dying Bride, Sarcofago, Deathspell Omega, Immolation, Dark Funeral, Carcass, Zyklon, Agoraphobic Nosebleed, Carpathian Forest, Impaled Nazarene…
- Acho que devias começar por Mayhem. Era de um gajo chamado Dead, imagina, que se suicidou e um outro elemento da banda, chamado Euronymous, tirou uma foto do gajo morto no chão e fez disso a capa do álbum seguinte. Esse gajo Euronymous, por sua vez, foi depois assassinado por um gajo de Burzum (uma banda rival) chamado Varg Vikernes, também conhecido por Count Grishnak, um gajo que quando esteve preso passou de satânico a nazi.
- ...
- Eu sou muito teu amigo, mas não podes começar a gostar de metal agora, não é a tua cena, nunca foi. Sem te querer desanimar, mas tu vestes camisas.
- Também tenho uma camisa preta.
- ...
- E tu na faculdade que um dia apareceste com uma camisinha azul, todo engomado, uma daquelas que têm um crocodilo cosido no bolso!
- Man, eu ouço metal deste os dois anos. Eu uso cabelo comprido desde os 12 anos, eu já toquei e cantei em bandas de metal, eu tenho seiscentos discos de metal! Seiscentos! Tu tens um, que compraste agora. Eu já toquei num festival de metal nos Estados Unidos e bebi uísque de um garrafão com vampiras à minha volta e tu, man, tu, compraste um DVD de Moonspell aos 28 anos. Eu digo-te o nome de centenas de bandas só assim de cabeça! Eu conheço uma banda de metal de Singapura, se for preciso!
- Qual?
- Rudra.
- Ah, nunca ouvi. São bons?
- E?
- Agora ando numa de começar a ouvir metal, tinha-me lembrado de ti, para me aconselhares umas bandas.
- Ninguém começa a ouvir metal aos 28 anos.
- Bem, tenho aqui uma lista de bandas e talvez me pudesses dizer algo e ...
- ... que bandas?
- Destroyer 666, Brutal Truth, Napalm Death, Arkhon Infaustus, My Dying Bride, Sarcofago, Deathspell Omega, Immolation, Dark Funeral, Carcass, Zyklon, Agoraphobic Nosebleed, Carpathian Forest, Impaled Nazarene…
- Acho que devias começar por Mayhem. Era de um gajo chamado Dead, imagina, que se suicidou e um outro elemento da banda, chamado Euronymous, tirou uma foto do gajo morto no chão e fez disso a capa do álbum seguinte. Esse gajo Euronymous, por sua vez, foi depois assassinado por um gajo de Burzum (uma banda rival) chamado Varg Vikernes, também conhecido por Count Grishnak, um gajo que quando esteve preso passou de satânico a nazi.
- ...
- Eu sou muito teu amigo, mas não podes começar a gostar de metal agora, não é a tua cena, nunca foi. Sem te querer desanimar, mas tu vestes camisas.
- Também tenho uma camisa preta.
- ...
- E tu na faculdade que um dia apareceste com uma camisinha azul, todo engomado, uma daquelas que têm um crocodilo cosido no bolso!
- Man, eu ouço metal deste os dois anos. Eu uso cabelo comprido desde os 12 anos, eu já toquei e cantei em bandas de metal, eu tenho seiscentos discos de metal! Seiscentos! Tu tens um, que compraste agora. Eu já toquei num festival de metal nos Estados Unidos e bebi uísque de um garrafão com vampiras à minha volta e tu, man, tu, compraste um DVD de Moonspell aos 28 anos. Eu digo-te o nome de centenas de bandas só assim de cabeça! Eu conheço uma banda de metal de Singapura, se for preciso!
- Qual?
- Rudra.
- Ah, nunca ouvi. São bons?
Caso psicológico ou psiquiátrico
Foi com satisfação que fiquei a saber que há cada vez mais portugueses com problemas psicológicos, 28 por cento da população, 2, 3 milhões, de acordo com resultados de um inquérito nacional.
Duplamente satisfeito, aliás, por razões fáceis de explicar. A primeira, que certamente já adivinharam, é o conforto que estes números me conferem, esta sensação de companhia que me normaliza.
A segunda é cultural, porque é neste mercado de doentes que me movimento, ainda que numa franja de razoabilidade que nos mantém, a mim e a eles, em pequenos picos de estupidez logo descidos ao nível da razoabilidade. Mas estaremos nós, eu e eles, apenas ao nível da mera psicologia ou já, ainda que crentes no contrário, embrenhados nos desvios psiquiátricos.
Vejamos um caso concreto:
(Um palmier simples em cima de uma mesa de um café de Lisboa e três amigos)
NP: Não gosto de palmier simples.
JP: Nem eu.
MP: Pede outra coisa.
NP: Não, não é isso, não gosto como desafio, é um bolo que não me estimula.
JP: Percebo o que queres dizer, é realmente um bolo de uma simplicidade confrangedora.
MP: Eles têm bolas com creme e pastéis de nata. E uns palmiers recheados e cobertos, pareceu-me ver na montra quando entrei.
NP: Pá, não é isso, não estás a perceber, acho o palmier simples um bolo demasiado simples, sinto-me capaz de comer um bolo de outra importância.
JP: Um palmier complicado.
MP: O bolo chama-se simples porque não tem creme, é apenas isso, acho eu. Para o diferenciar dos outros, que têm creme.
(MP come o palmier e deixa o rebordo do bolo, demasiado queimado para o seu gosto, no pires)
NP: Não comes a casca?
JP: O palmier simples nada tem que mereça pensá-lo, é um bolo que, ao nível da análise cognoscível se dá pouco ao conhecimento do outro, é uma referência que não interage.
NP: Sim, não motiva, é simples. Lembro-me agora, por exemplo, destas tristezas do acaso que são como animais que, continuando, têm o termo Comum por referência.
JP: Sim, o Cágado Comum, por instância.
MP: Uma infelicidade, têm razão. Este, no fundo, era um Palmier Comum.
NP: Ainda bem que não servem cágados nesta pastelaria.
MP: Sim, valha-nos isso. Acho que o palmier simples devia ser mais barato que os outros.
Psicologia ou psiquiatria?
Duplamente satisfeito, aliás, por razões fáceis de explicar. A primeira, que certamente já adivinharam, é o conforto que estes números me conferem, esta sensação de companhia que me normaliza.
A segunda é cultural, porque é neste mercado de doentes que me movimento, ainda que numa franja de razoabilidade que nos mantém, a mim e a eles, em pequenos picos de estupidez logo descidos ao nível da razoabilidade. Mas estaremos nós, eu e eles, apenas ao nível da mera psicologia ou já, ainda que crentes no contrário, embrenhados nos desvios psiquiátricos.
Vejamos um caso concreto:
(Um palmier simples em cima de uma mesa de um café de Lisboa e três amigos)
NP: Não gosto de palmier simples.
JP: Nem eu.
MP: Pede outra coisa.
NP: Não, não é isso, não gosto como desafio, é um bolo que não me estimula.
JP: Percebo o que queres dizer, é realmente um bolo de uma simplicidade confrangedora.
MP: Eles têm bolas com creme e pastéis de nata. E uns palmiers recheados e cobertos, pareceu-me ver na montra quando entrei.
NP: Pá, não é isso, não estás a perceber, acho o palmier simples um bolo demasiado simples, sinto-me capaz de comer um bolo de outra importância.
JP: Um palmier complicado.
MP: O bolo chama-se simples porque não tem creme, é apenas isso, acho eu. Para o diferenciar dos outros, que têm creme.
(MP come o palmier e deixa o rebordo do bolo, demasiado queimado para o seu gosto, no pires)
NP: Não comes a casca?
JP: O palmier simples nada tem que mereça pensá-lo, é um bolo que, ao nível da análise cognoscível se dá pouco ao conhecimento do outro, é uma referência que não interage.
NP: Sim, não motiva, é simples. Lembro-me agora, por exemplo, destas tristezas do acaso que são como animais que, continuando, têm o termo Comum por referência.
JP: Sim, o Cágado Comum, por instância.
MP: Uma infelicidade, têm razão. Este, no fundo, era um Palmier Comum.
NP: Ainda bem que não servem cágados nesta pastelaria.
MP: Sim, valha-nos isso. Acho que o palmier simples devia ser mais barato que os outros.
Psicologia ou psiquiatria?
Tuesday, February 17, 2009
Só para avisar
Um dia que os meus lucros desçam para duzentos milhões de euros por ano despeço logo toda a gente, que é para aprenderem a não ser estúpidos.
Thursday, February 12, 2009
Toda a verdade sobre pisar cagalhões
Tenho um respeito que roça - não diria que roça sexualmente, diria que apenas roça mas um roçar que fica antes do esfregar, que é quase uma casualidade no metro, um roçar que está, efectivamente, mais perto do mero encontrão -; bem, dizia: tenho um respeito que roça a admiração pelos chamados adágios populares, aqueles que ninguém sabe de onde vêm - e eu que até tenho aqui um livro chamado O Grande Livro dos Provérbios, de João Pedro Machado.
Nele procurei, sem bom resultado, a razão pela qual pisar merda dá sorte.
Conheço gente, gente muito triste, que já pisou merda de propósito como quem fez cruzes no euromilhões mas nada. Mas tenho respeito porque acho que mesmo os adágios e os sentimentos populares mais idiotas são, no fundo, visões do futuro.
«Um dia haverá um telefone em cada uma das principais cidades dos Estados Unidos da América», Alexander Graham Bell.
Dir-se-ia que esta frase, de infeliz previsão, porque incrivelmente aquém, foi como pisar cagalhões para Graham Bell: uma frase de merda revelaria um génio.
O que quero dizer é o seguinte: pisar merda, bem como dizer merda, poderá até ser o grande negócio dentro de um século. Haverá pisadores oficiais de merda, creio, e a minha grande tristeza é esta sensação de que eu - que ao contrário do que se possa pensar sou mortal - não verei essa bela era.
Num dia destes, a chegar a casa, atravessei o jardim da praceta para cortar caminho e pisei um cagalhão com o pé esquerdo e outro com o direito. E não era merda da mesma estirpe, porque quando fui lavar as botas na banheira verifiquei consistências e aromas díspares.
«Um dia haverá pisadores oficiais de merda em todas as grandes cidades dos Estados Unidos da América», Lunatic on the grass.
Nele procurei, sem bom resultado, a razão pela qual pisar merda dá sorte.
Conheço gente, gente muito triste, que já pisou merda de propósito como quem fez cruzes no euromilhões mas nada. Mas tenho respeito porque acho que mesmo os adágios e os sentimentos populares mais idiotas são, no fundo, visões do futuro.
«Um dia haverá um telefone em cada uma das principais cidades dos Estados Unidos da América», Alexander Graham Bell.
Dir-se-ia que esta frase, de infeliz previsão, porque incrivelmente aquém, foi como pisar cagalhões para Graham Bell: uma frase de merda revelaria um génio.
O que quero dizer é o seguinte: pisar merda, bem como dizer merda, poderá até ser o grande negócio dentro de um século. Haverá pisadores oficiais de merda, creio, e a minha grande tristeza é esta sensação de que eu - que ao contrário do que se possa pensar sou mortal - não verei essa bela era.
Num dia destes, a chegar a casa, atravessei o jardim da praceta para cortar caminho e pisei um cagalhão com o pé esquerdo e outro com o direito. E não era merda da mesma estirpe, porque quando fui lavar as botas na banheira verifiquei consistências e aromas díspares.
«Um dia haverá pisadores oficiais de merda em todas as grandes cidades dos Estados Unidos da América», Lunatic on the grass.
Sunday, February 8, 2009
Caçar antílopes em Lisboa
Numa luta, roubaram-me a espingarda em Alcântara, pelo que subo o vale zangado e à espera de nova emboscada. A cada carro que passa pela avenida, vale acima, comigo trilhando com o peso da casaco e das botas ensopadas e nada mais que a aljava de couro enegrecido presa por uma corda amarrada à cinta, vou pensando
- Idiotas, são todos uns idiotas, a espantarem os antílopes cruzando os caminhos a toda a brida.
Os outros homens do meu bando, nas árvores secas de Monsanto, há muito não acendem fogueiras, não vejo os seus fumos de dia nem as suas labaredas nocturnas. Caminho pelo vale, deixo Alcântara para trás, limpo outra vez as feridas que tenho na perna esquerda, são pequenas bocas de sangue, será que estancam com a seiva dos limos?
Ando horas sem antílopes, Alcântara é já uma distância e uma memória dessa manhã.
Vejo, de súbito, cornos atrás de arbustos que se mexem, caminho calmamente, cruzo o caminho de alcatrão com riscas brancas, ouço buzinas, alguém me chama nomes, idiotas, são todos uns idiotas, escondo-me atrás da primeira árvore, um tronco demasiado fino, são três animais, ruminam despreocupadamente
- Idiotas, as buzinas vão assustá-los, todos uns idiotas.
Puxo uma seta, humedeço-lhe as fibras, sinto a tensão do arco, ouço o esticar baixinho como um sussurro de um companheiro que me diz não falharás.
Em cheio, o antílope ainda corre assustado duzentos metros para a estrada, tropeça como se as patas lhe escorregassem nas pedras verdes de uma beira-rio, os pneus dos carros chiam, ouço metal que se encosta e vejo sangue escorrer no meio do óleo e do combustível na estrada. Avanço pelo meio, nada disto é comigo, vejo apenas o estrebuchar do antílope entre o fumo, corto-lhe o pescoço, ouço já sirenes ao fundo do vale enquanto faço sinais para Monsanto, envio bocados de sol reflectidos num vidro para o meio da floresta, peço ajuda para levar daqui o animal, pesa de mais para mim.
Ouço sirenes ao fundo do vale, agora mais perto, chove muito mais, pesam-me as roupas e a aljava, arrasto o antílope pelos cornos até uma clareira na berma e descanso até que da floresta desçam para me ajudar.
- Idiotas, são todos uns idiotas, a espantarem os antílopes cruzando os caminhos a toda a brida.
Os outros homens do meu bando, nas árvores secas de Monsanto, há muito não acendem fogueiras, não vejo os seus fumos de dia nem as suas labaredas nocturnas. Caminho pelo vale, deixo Alcântara para trás, limpo outra vez as feridas que tenho na perna esquerda, são pequenas bocas de sangue, será que estancam com a seiva dos limos?
Ando horas sem antílopes, Alcântara é já uma distância e uma memória dessa manhã.
Vejo, de súbito, cornos atrás de arbustos que se mexem, caminho calmamente, cruzo o caminho de alcatrão com riscas brancas, ouço buzinas, alguém me chama nomes, idiotas, são todos uns idiotas, escondo-me atrás da primeira árvore, um tronco demasiado fino, são três animais, ruminam despreocupadamente
- Idiotas, as buzinas vão assustá-los, todos uns idiotas.
Puxo uma seta, humedeço-lhe as fibras, sinto a tensão do arco, ouço o esticar baixinho como um sussurro de um companheiro que me diz não falharás.
Em cheio, o antílope ainda corre assustado duzentos metros para a estrada, tropeça como se as patas lhe escorregassem nas pedras verdes de uma beira-rio, os pneus dos carros chiam, ouço metal que se encosta e vejo sangue escorrer no meio do óleo e do combustível na estrada. Avanço pelo meio, nada disto é comigo, vejo apenas o estrebuchar do antílope entre o fumo, corto-lhe o pescoço, ouço já sirenes ao fundo do vale enquanto faço sinais para Monsanto, envio bocados de sol reflectidos num vidro para o meio da floresta, peço ajuda para levar daqui o animal, pesa de mais para mim.
Ouço sirenes ao fundo do vale, agora mais perto, chove muito mais, pesam-me as roupas e a aljava, arrasto o antílope pelos cornos até uma clareira na berma e descanso até que da floresta desçam para me ajudar.
Saturday, February 7, 2009
Pseudo-estúpido - parte 2
Não tenho por hábito escrever sequelas dos meus textos – julgo sempre que um já basta; excepto quanto opto por não abordar determinado tema, porque me irrita, e nesse caso posso, eventualmente, não escrever sobre esse tema não apenas uma vez mas duas e às vezes até mais – mas a leitura e releitura das declarações do bispo tradicionalista católico – chiça, que só falta democrata-cristão! – Richard Williamson, em que este inglês duvidava do assassínio de judeus em câmaras de gás nazis fez-me, afinal, progredir na dissertação do pseudo-estúpido.
Carta aberta a um bispo tradicionalista católico democrata cristão pseudo-estúpido de nome Richard Williamson:
Sua alteza,
espero que a tradução que encontrou deste meu texto para inglês não seja, antes de mais, enganadora ao ponto de traduzir porquinho-da-índia por porquinho-da-guiné, porque afinal em inglês é guinea pig e não india pig. Enfim, não nos percamos por atalhos.
Você está entradote, pelo que a sua memória das coisas está, imagino, decrescente. Nesse sentido, partilharei consigo experiências pessoais ao nível da memória e dos seus intrincados jogos no cérebro.
Começo pelo Senhor dos Anéis, pois dessa forma popularizarei uma questão pessoal e poderemos falar sobre ela sem que eu me sinta privilegiado na informação. Gosto tanto da escrita de Tolkien e admiro de tal forma a prodigiosa imaginação do autor que, sinceramente, leio e releio até que, um dia, tudo aquilo seja realmente verdade para mim e deixe de ser ficção para ser, enfim, história na minha cabeça.
Há, no entanto, tanto detalhe subjacente, tanta raça, tanto mundo, tanto guarda-roupa, tanta maldade figurada e bondade guerreira que, de cada vez que leio, parece que esqueço algo na exacta medida em que noutra coisa reparo pela primeira vez. Percebe: é um constante trabalho de esquecer e aprender ao mesmo tempo.
Já, como você e qualquer outra pessoa, li e reli e vi quase tudo sobre nazismo. Estou, imagine, a ler A Noite, de Elie Wiesel. O senhor disse que disse o que disse numa entrevista a uma televisão sueca atendendo às investigações que fez na década de 80; o livro a que me refiro é de 1958, talvez o possa, ainda, anexar às investigações.
Neste caso, pelo menos comigo, a memória brinca com o cérebro de maneira diferente da experiência do Senhor dos Anéis: leio e releio, vejo e revejo, ouço e ouço outra vez, admiro-me. Já passei até, como turista, veja lá, num campo de concentração e foi a coisa mais próxima que tive de sonhar acordado. O estranho, no entanto, é que de cada vez que me contam, leio ou vejo espanto-me como se fosse a primeira.
É crente nesta esperança de que consigo se passe o mesmo, de que viva neste estado de negação da própria memória, que o considero apenas pseudo-estúpido e não estúpido na verdadeira acepção da palavra.
Só para acabar: se eu escrever aqui constipação, espero que o seu tradutor automático não escolha constipated; e se eu escrever prisão de ventre, ao menos que traduza para boca fechada.
Carta aberta a um bispo tradicionalista católico democrata cristão pseudo-estúpido de nome Richard Williamson:
Sua alteza,
espero que a tradução que encontrou deste meu texto para inglês não seja, antes de mais, enganadora ao ponto de traduzir porquinho-da-índia por porquinho-da-guiné, porque afinal em inglês é guinea pig e não india pig. Enfim, não nos percamos por atalhos.
Você está entradote, pelo que a sua memória das coisas está, imagino, decrescente. Nesse sentido, partilharei consigo experiências pessoais ao nível da memória e dos seus intrincados jogos no cérebro.
Começo pelo Senhor dos Anéis, pois dessa forma popularizarei uma questão pessoal e poderemos falar sobre ela sem que eu me sinta privilegiado na informação. Gosto tanto da escrita de Tolkien e admiro de tal forma a prodigiosa imaginação do autor que, sinceramente, leio e releio até que, um dia, tudo aquilo seja realmente verdade para mim e deixe de ser ficção para ser, enfim, história na minha cabeça.
Há, no entanto, tanto detalhe subjacente, tanta raça, tanto mundo, tanto guarda-roupa, tanta maldade figurada e bondade guerreira que, de cada vez que leio, parece que esqueço algo na exacta medida em que noutra coisa reparo pela primeira vez. Percebe: é um constante trabalho de esquecer e aprender ao mesmo tempo.
Já, como você e qualquer outra pessoa, li e reli e vi quase tudo sobre nazismo. Estou, imagine, a ler A Noite, de Elie Wiesel. O senhor disse que disse o que disse numa entrevista a uma televisão sueca atendendo às investigações que fez na década de 80; o livro a que me refiro é de 1958, talvez o possa, ainda, anexar às investigações.
Neste caso, pelo menos comigo, a memória brinca com o cérebro de maneira diferente da experiência do Senhor dos Anéis: leio e releio, vejo e revejo, ouço e ouço outra vez, admiro-me. Já passei até, como turista, veja lá, num campo de concentração e foi a coisa mais próxima que tive de sonhar acordado. O estranho, no entanto, é que de cada vez que me contam, leio ou vejo espanto-me como se fosse a primeira.
É crente nesta esperança de que consigo se passe o mesmo, de que viva neste estado de negação da própria memória, que o considero apenas pseudo-estúpido e não estúpido na verdadeira acepção da palavra.
Só para acabar: se eu escrever aqui constipação, espero que o seu tradutor automático não escolha constipated; e se eu escrever prisão de ventre, ao menos que traduza para boca fechada.
Friday, February 6, 2009
Fui visto por um OVNI
Aconteceu-me num dia destes: passeava eu quando um disco enorme lançou sobre mim uma sombra de luz.
Anteontem recebi esta carta:
- Caro senhor Lunatic On The Grass, vi-mo-lo e contámos aos nossos amigos OVNIS que o tínhamos visto, mas eles, não sabemos porquê, não acreditam.
Quem diria: ainda usam cartas.
Anteontem recebi esta carta:
- Caro senhor Lunatic On The Grass, vi-mo-lo e contámos aos nossos amigos OVNIS que o tínhamos visto, mas eles, não sabemos porquê, não acreditam.
Quem diria: ainda usam cartas.
Thursday, February 5, 2009
Pseudo-estúpido
Tendo em consideração que não tenho muita coisa para fazer hoje e tendo eu, sempre, tanta coisa desinteressante dentro de mim - o que me vale é que por fora sou bonito -, decidi pedir-vos ajuda na minha demanda pelo grande esclarecimento: o que é um pseudo-estúpido?
É, posso quase garantir, algo que há muito vos intriga igualmente.
O pseudo-intelectual é o quase intelectual, é o falso intelectual, é o que aspira. É, resumindo, alguém de que ninguém gosta muito porque se lhe sente uma mentira. Que dizer, porém, de alguém que é quase estúpido, falso estúpido, o que aspira a ser estúpido?
Fiz um teste: juntei quatro pessoas na minha sala, sentei-as no sofá e perguntei-lhes: Já leu Eça de Queiroz?
Simples pergunta, creio.
Eis as respostas:
Intelectual:
- Hã?
Pseudo-intelectual:
- Li, evidentemente que li, não li eu outra coisa, Eça de Queiroz, claro que sim. Os Maias, li os Maias.
Pseudo-estúpido:
- Li.
Estúpido:
- Hã?
Ora bem: posto isto, conduzi uma série de testes, demorados, e cheguei à conclusão de que dos quatro apenas um tinha, além de mim, lido Eça de Queiroz: o intelectual. Mas eu não conto, porque eu nem sei que sou quanto mais o que aspiro a ser.
O «hã?» do intelectual, percebi depois, prendeu-se com o espanto provocado pela pergunta. Teria dado a mesma resposta se eu lhe tivesse perguntado coisas como: já respirou alguma vez?; já comeu torta de laranja?; já fantasiou com uma colega de trabalho?; já votou num partido de que publicamente não gosta?
O pseudo-intelectual, que não leu Eça de Queiroz, nem sequer os Maias, nem sequer os resumos da Europa-América, nada, disse que sim, porque sabia que se fosse sincero e assumisse a sua ignorância isso faria dele uma besta.
O estúpido respondeu também «hã?» porque, verdadeiramente, nem sequer percebeu a pergunta.
Mas é o pseudo-estúpido que me interessa. O que respondeu apenas «li», é nele que me concentro.
O que busco saber é: o pseudo-estúpido é menos estúpido do que o estúpido, porque afinal é apenas quase estúpido?; ou será o pseudo-estúpido mais estúpido que o estúpido pela simples razão de que aspira a ser estúpido enquanto o estúpido, coitado, apenas é estúpido porque não tem escolha?
Isto, claro, coloca o pseudo-intelectual no mesmo dilema, ainda que num patamar diferente: é mais intelectual do que o próprio intelectual pelo simples facto de que aspira a um determinado nível de intelectualidade ou é menos intelectual do que o intelectual porque, dizem os termos, é apenas quase intelectual?
Sinceramente, não sei. O que sei é que tanto o intelectual como o estúpido responderam «hã?» à minha pergunta.
Depois, servi-lhes quatro cafés da Nespresso. Melhor dizendo: um café para o estúpido e três descafeinados para os outros, que me pareceram muito nervosos com as minhas perguntas.
É, posso quase garantir, algo que há muito vos intriga igualmente.
O pseudo-intelectual é o quase intelectual, é o falso intelectual, é o que aspira. É, resumindo, alguém de que ninguém gosta muito porque se lhe sente uma mentira. Que dizer, porém, de alguém que é quase estúpido, falso estúpido, o que aspira a ser estúpido?
Fiz um teste: juntei quatro pessoas na minha sala, sentei-as no sofá e perguntei-lhes: Já leu Eça de Queiroz?
Simples pergunta, creio.
Eis as respostas:
Intelectual:
- Hã?
Pseudo-intelectual:
- Li, evidentemente que li, não li eu outra coisa, Eça de Queiroz, claro que sim. Os Maias, li os Maias.
Pseudo-estúpido:
- Li.
Estúpido:
- Hã?
Ora bem: posto isto, conduzi uma série de testes, demorados, e cheguei à conclusão de que dos quatro apenas um tinha, além de mim, lido Eça de Queiroz: o intelectual. Mas eu não conto, porque eu nem sei que sou quanto mais o que aspiro a ser.
O «hã?» do intelectual, percebi depois, prendeu-se com o espanto provocado pela pergunta. Teria dado a mesma resposta se eu lhe tivesse perguntado coisas como: já respirou alguma vez?; já comeu torta de laranja?; já fantasiou com uma colega de trabalho?; já votou num partido de que publicamente não gosta?
O pseudo-intelectual, que não leu Eça de Queiroz, nem sequer os Maias, nem sequer os resumos da Europa-América, nada, disse que sim, porque sabia que se fosse sincero e assumisse a sua ignorância isso faria dele uma besta.
O estúpido respondeu também «hã?» porque, verdadeiramente, nem sequer percebeu a pergunta.
Mas é o pseudo-estúpido que me interessa. O que respondeu apenas «li», é nele que me concentro.
O que busco saber é: o pseudo-estúpido é menos estúpido do que o estúpido, porque afinal é apenas quase estúpido?; ou será o pseudo-estúpido mais estúpido que o estúpido pela simples razão de que aspira a ser estúpido enquanto o estúpido, coitado, apenas é estúpido porque não tem escolha?
Isto, claro, coloca o pseudo-intelectual no mesmo dilema, ainda que num patamar diferente: é mais intelectual do que o próprio intelectual pelo simples facto de que aspira a um determinado nível de intelectualidade ou é menos intelectual do que o intelectual porque, dizem os termos, é apenas quase intelectual?
Sinceramente, não sei. O que sei é que tanto o intelectual como o estúpido responderam «hã?» à minha pergunta.
Depois, servi-lhes quatro cafés da Nespresso. Melhor dizendo: um café para o estúpido e três descafeinados para os outros, que me pareceram muito nervosos com as minhas perguntas.
Saturday, December 27, 2008
Popota ou Leopoldina
- Comias mais depressa a Popota ou a Leopoldina?
- Quem?
- As bonecas dos supermercados, qual é que comias?
- Comia, como assim?
- Comias, pá, com qual é que querias coiso e tal em primeiro lugar; qual é a que gostas mais, queres que te faça um desenho?
- Um desenho da Popota? Mas a Popota não é um desenho?
- Pá, vamos lá ver se a gente se entende: há duas bonecas que andam ai nas promoções dos supermercados e nas acções de solidariedade, uma delas é uma hipopótama, a Popota, a outra é uma avestruz, a Leopoldina. Qual é que comias primeiro?
- O feminino de hipopótamo é hipopótamo fêmea, acho que não se diz hipopótama.
- Pronto, está bem, já cá faltava o espertinho. Mas e então: qual é que comias?
- Acho que a Leopoldina, carne de avestruz parece-me melhor do que de hipopótamo.
- Chiça, que é burro! Não estamos a falar de comer bifes, mas sim de comer, de levar para a cama!
- Ah, mas se for para comer bonecas, prefiro a Jessica Rabbit, que ao menos parece uma mulher, tu não?
- Pá, não se pode falar contigo. Olha, eu comia a Popota, já que queres saber.
- Quem?
- As bonecas dos supermercados, qual é que comias?
- Comia, como assim?
- Comias, pá, com qual é que querias coiso e tal em primeiro lugar; qual é a que gostas mais, queres que te faça um desenho?
- Um desenho da Popota? Mas a Popota não é um desenho?
- Pá, vamos lá ver se a gente se entende: há duas bonecas que andam ai nas promoções dos supermercados e nas acções de solidariedade, uma delas é uma hipopótama, a Popota, a outra é uma avestruz, a Leopoldina. Qual é que comias primeiro?
- O feminino de hipopótamo é hipopótamo fêmea, acho que não se diz hipopótama.
- Pronto, está bem, já cá faltava o espertinho. Mas e então: qual é que comias?
- Acho que a Leopoldina, carne de avestruz parece-me melhor do que de hipopótamo.
- Chiça, que é burro! Não estamos a falar de comer bifes, mas sim de comer, de levar para a cama!
- Ah, mas se for para comer bonecas, prefiro a Jessica Rabbit, que ao menos parece uma mulher, tu não?
- Pá, não se pode falar contigo. Olha, eu comia a Popota, já que queres saber.
Pais natais, a gente é que sabe
Destas noites de Natal chega-me uma tristeza qualquer que se mede pelo número de luzes. Muitas luzes são boas, poucas luzes são piores que más, são a coisa mais triste do mundo, como fiozinhos de alegria fingida pelas montras, pendurados num candeeiro de parede de restaurante, ou bolinhas que já sobraram de dez natais.
Mas é quando chego a casa e a tua aliança que parou de rolar precisamente junto à nossa fotografia ali no móvel, sorridentes de antes, antes eternos, não sei como a tua aliança ficou lá em casa e como foi rolar até ali. Não sei sequer, nem quero imaginar, como te saiu a aliança do dedo em primeiro lugar. Para mim é o anel de Sauron.
Este natal vazio de que me lembro, de luzes que piscam nas varandas dos outros e pais natais pendurados em escadas – acho piada aos pais natais pendurados em escadas, muito mais do que a luzes -, vazio aqui dentro, os livros agora deitados nas prateleiras quando antes estavam em pé, agora desamparados pelos que levaste para a tua casa nova e eu fiquei aqui com o que não levaste. Não me levaste a mim. Parece que também eu estou caído numa estante.
Mas esse natal de que me lembro não é este agora em que estás de volta. A nossa foto que nunca saiu dali e a aliança outra vez no teu dedo. Não me levaste a mim, mas voltaste. E o melhor de tudo é que aqui não temos luzes, talvez tenhamos um pai natal pendurado ali fora na janela e eu nem saiba, talvez. É isso que trazes, essa possibilidade das coisas lá fora na janela. Estas conversas que temos: pais natal ou pais natais? parece que pais natal mas concluímos que não devia ser, que pais natais soa bem melhor e são estas vontades de errar que nos unem.
As estantes outra vez cheias, os livros encostados uns aos outros outra vez, lombadas que são espinhas dorsais. Os discos, os discos também, todos outra vez numa festa de natal. As coisas que enchem e esvaziam estas estantes, aparentemente aos ritmos do natal. As coisas que enchem e esvaziam estas estantes, enchem e esvaziam, assim, mil vezes repetido, enchem e esvaziam, enchem, esvaziam, são marés-cheias e vazias na praia da nossa vida. Tanto são as insuportáveis luzinhas da alegria como pais natais - claro que pais natais - pendurados a querer entrar.
Mas é quando chego a casa e a tua aliança que parou de rolar precisamente junto à nossa fotografia ali no móvel, sorridentes de antes, antes eternos, não sei como a tua aliança ficou lá em casa e como foi rolar até ali. Não sei sequer, nem quero imaginar, como te saiu a aliança do dedo em primeiro lugar. Para mim é o anel de Sauron.
Este natal vazio de que me lembro, de luzes que piscam nas varandas dos outros e pais natais pendurados em escadas – acho piada aos pais natais pendurados em escadas, muito mais do que a luzes -, vazio aqui dentro, os livros agora deitados nas prateleiras quando antes estavam em pé, agora desamparados pelos que levaste para a tua casa nova e eu fiquei aqui com o que não levaste. Não me levaste a mim. Parece que também eu estou caído numa estante.
Mas esse natal de que me lembro não é este agora em que estás de volta. A nossa foto que nunca saiu dali e a aliança outra vez no teu dedo. Não me levaste a mim, mas voltaste. E o melhor de tudo é que aqui não temos luzes, talvez tenhamos um pai natal pendurado ali fora na janela e eu nem saiba, talvez. É isso que trazes, essa possibilidade das coisas lá fora na janela. Estas conversas que temos: pais natal ou pais natais? parece que pais natal mas concluímos que não devia ser, que pais natais soa bem melhor e são estas vontades de errar que nos unem.
As estantes outra vez cheias, os livros encostados uns aos outros outra vez, lombadas que são espinhas dorsais. Os discos, os discos também, todos outra vez numa festa de natal. As coisas que enchem e esvaziam estas estantes, aparentemente aos ritmos do natal. As coisas que enchem e esvaziam estas estantes, enchem e esvaziam, assim, mil vezes repetido, enchem e esvaziam, enchem, esvaziam, são marés-cheias e vazias na praia da nossa vida. Tanto são as insuportáveis luzinhas da alegria como pais natais - claro que pais natais - pendurados a querer entrar.
Monday, November 17, 2008
Ela tão triste
Ela queria compor a música mais triste de sempre, que só por si despressurizasse. E ouvia Down in a hole de Alice in Chains e logo Mother de Pink Floyd, repetidamente pela noite dentro e pela noite fora, que são estranhamente a mesma coisa no que respeita às noites; logo as noites só podem ser uma fronteira sem fora nem dentro, um caminho a seguir sem lados; enquanto as velas de chamas negras no seu quarto lutavam por espaço no negrume do próprio ar e os cheiros do frio dezembrês chegavam uninvited da janela e a anestesiam a cada inspiração.
Dedilhava na guitarra como quem tocava feridas, doíam-lhe as cordas nas pontas dos dedos bem como lhe doíam os sons nos ossos, um distorcer que só existe na música, porque distorcer, fora da música, é forçosamente endireitar.
Apenas a música mais triste de sempre e de repente o Down in a hole e o Mother a tocarem ao mesmo tempo em rádios diferentes
Down in a hole and I dont know if I can be saved
Mother, do you think they’ll drop the bomb?
Mother, do you think they’ll like this song?
See my heart I decorate it like a grave
You dont understand who they
Thought I was supposed to be
Look at me now a man
Who wont let himself be
Mother, do you think they'll try to break my balls?
Ooooowaa mother, should I build a wall?
Down in a hole, feelin so small
Down in a hole, losin my soul
I'd like to fly,
But my wings have been so denieeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeed
como se juntas formassem uma coisa mais triste ainda. Será que duas tristezas se juntam numa mesma ou uma ocupa o lugar da outra? E as lágrimas que lhe iam correndo pela cara sem saber porquê, que como escreveu Saramago eram um sangue branco. Não há certamente melhor maneira de dizer isto: sangue branco.
Havia ali um conforto de estar triste que não pode ter explicação, uma dor de solidão, um ar pesado à volta, um ar empedrado que nem respirado se suavizava, que não se partia, um ar irrespirável é um ar morto.
Apenas a música mais triste de sempre. Deveria ser tão fácil de tão triste que ela estava e de mais triste que desejava estar ainda. Era uma entrega à tristeza para poder ter a tal música. Mas nada. Aquele desejo de estar triste foi plenamente conseguido e nessa obtenção de tristeza estava toda uma alegria alcançada que deitava tudo o resto a perder. Querer estar triste e conseguir dá nisso: na alegria de o ter conseguido.
Era para ser a música mais triste de sempre, mas jamais ela pensara ser tão difícil criar assim, como o Down in a hole ou como o Mother, uma tristeza que tocasse a todos sempre que escutada num rádio, escrita por alguém que queria estar triste e nem isso deve ter conseguido.
Dedilhava na guitarra como quem tocava feridas, doíam-lhe as cordas nas pontas dos dedos bem como lhe doíam os sons nos ossos, um distorcer que só existe na música, porque distorcer, fora da música, é forçosamente endireitar.
Apenas a música mais triste de sempre e de repente o Down in a hole e o Mother a tocarem ao mesmo tempo em rádios diferentes
Down in a hole and I dont know if I can be saved
Mother, do you think they’ll drop the bomb?
Mother, do you think they’ll like this song?
See my heart I decorate it like a grave
You dont understand who they
Thought I was supposed to be
Look at me now a man
Who wont let himself be
Mother, do you think they'll try to break my balls?
Ooooowaa mother, should I build a wall?
Down in a hole, feelin so small
Down in a hole, losin my soul
I'd like to fly,
But my wings have been so denieeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeed
como se juntas formassem uma coisa mais triste ainda. Será que duas tristezas se juntam numa mesma ou uma ocupa o lugar da outra? E as lágrimas que lhe iam correndo pela cara sem saber porquê, que como escreveu Saramago eram um sangue branco. Não há certamente melhor maneira de dizer isto: sangue branco.
Havia ali um conforto de estar triste que não pode ter explicação, uma dor de solidão, um ar pesado à volta, um ar empedrado que nem respirado se suavizava, que não se partia, um ar irrespirável é um ar morto.
Apenas a música mais triste de sempre. Deveria ser tão fácil de tão triste que ela estava e de mais triste que desejava estar ainda. Era uma entrega à tristeza para poder ter a tal música. Mas nada. Aquele desejo de estar triste foi plenamente conseguido e nessa obtenção de tristeza estava toda uma alegria alcançada que deitava tudo o resto a perder. Querer estar triste e conseguir dá nisso: na alegria de o ter conseguido.
Era para ser a música mais triste de sempre, mas jamais ela pensara ser tão difícil criar assim, como o Down in a hole ou como o Mother, uma tristeza que tocasse a todos sempre que escutada num rádio, escrita por alguém que queria estar triste e nem isso deve ter conseguido.
Sunday, November 16, 2008
Nomes fodidos
Coito Pita, um dos vice-presidentes do Grupo Parlamentar do PSD/Madeira, apresentou o seu pedido de demissão do cargo.
Segundo informações recolhidas pelo nosso jornal, as razões para que Coito Pita assim o tenha feito prendem-se com matérias de natureza privada. Ainda assim, porque o privado é chato, tentámos obter esclarecimentos junto de familiares de Coito Pita, nomeadamente de um dos seus muitos primos, Queca Rata.
«Pelo que sei o meu primo Coito Pita estava farto das más-línguas», adiantou em breve conversa telefónica sem, todavia, aprofundar.
Neste sentido, atendendo aos arrepios que Coito Pita provocou no seio do referido grupo parlamentar, auscultámos igualmente a prestigiada opinião do professor Relação Sexual Vagina, eminente figura da política regional e desde há muito próximo de Coito Pita.
«São questões preliminares, distantes do propósito do momento. O que realmente se passa é que Pita está tão simplesmente fechado para a actividade», explicou.
Para a vaga de Coito Pita deverá agora adiantar-se um dos seus rivais na assembleia legislativa, homem da mesma tez política porém com outro entendimento sobre aberturas estratégicas: Trancada Pipi.
Pipi que, de resto, fazendo inclusivamente lembrar declarações exaltadas do controverso Foda Cona aquando da demissão deste em 2003, não se conteve e referiu-se à saída de Coito Pita sem meias palavras.
«Estava com certeza farto que lhe fodessem o juízo», disse Trancada Pipi.
Segundo informações recolhidas pelo nosso jornal, as razões para que Coito Pita assim o tenha feito prendem-se com matérias de natureza privada. Ainda assim, porque o privado é chato, tentámos obter esclarecimentos junto de familiares de Coito Pita, nomeadamente de um dos seus muitos primos, Queca Rata.
«Pelo que sei o meu primo Coito Pita estava farto das más-línguas», adiantou em breve conversa telefónica sem, todavia, aprofundar.
Neste sentido, atendendo aos arrepios que Coito Pita provocou no seio do referido grupo parlamentar, auscultámos igualmente a prestigiada opinião do professor Relação Sexual Vagina, eminente figura da política regional e desde há muito próximo de Coito Pita.
«São questões preliminares, distantes do propósito do momento. O que realmente se passa é que Pita está tão simplesmente fechado para a actividade», explicou.
Para a vaga de Coito Pita deverá agora adiantar-se um dos seus rivais na assembleia legislativa, homem da mesma tez política porém com outro entendimento sobre aberturas estratégicas: Trancada Pipi.
Pipi que, de resto, fazendo inclusivamente lembrar declarações exaltadas do controverso Foda Cona aquando da demissão deste em 2003, não se conteve e referiu-se à saída de Coito Pita sem meias palavras.
«Estava com certeza farto que lhe fodessem o juízo», disse Trancada Pipi.
Wednesday, November 12, 2008
Songs from the film Help
O doente sentou-se na cadeira de plástico e procurou entre os papéis da mesa um espaço para os cotovelos.
- Doutor, o que se passa comigo é que era uma vez uma grande ideia de que nunca alguém se tinha lembrado. Por isso a ideia foi-se embora, desiludida consigo mesma por nunca se ter conseguido mostrar. E depois, doutor, depois de se ter ido embora para sempre dizem que morreu sozinha num sítio muito sozinho.
- Meu caro, temo não estar a ver onde pretende chegar, julguei que lhe doíam as costas.
- Tudo o que restou dela é um singelo começo, uma memória, uma expressão «era uma vez». E desde a morte dessa grande ideia todos quantos começam uma outra começam com era uma vez, doutor, à espera que a sua seja a certa, tentando chamá-la, à procura. Mas eu acho, doutor, que nunca ninguém conseguiu lembrar-se dessa ideia, essa ideia que ninguém conseguiu salvar do abismo das outras coisas sempre iguais. Doutor.
- Você está bêbado?
- Dizem os médicos, diz você, doutor, que o álcool não pode trazer criatividade, que pelo contrário. Provoca no corpo uma libertação, doutor, que nos torna disponíveis e confiantes para criar. Tudo bem, doutor, doutor, aceito isso de estar bêbado, tudo bem, doutor, aceito, o doutor sabe que eu aceito. Aceito até, se o doutor quiser, que o Revolver, o Peppers, o Rubber... aceito, doutor, que teriam sido melhores se Lennon e McCartney estivessem sóbrios. Mas diga-me lá, doutor, você que não está bêbado, doutor, poderiam os Beatles ter sido melhores?
- Doutor, o que se passa comigo é que era uma vez uma grande ideia de que nunca alguém se tinha lembrado. Por isso a ideia foi-se embora, desiludida consigo mesma por nunca se ter conseguido mostrar. E depois, doutor, depois de se ter ido embora para sempre dizem que morreu sozinha num sítio muito sozinho.
- Meu caro, temo não estar a ver onde pretende chegar, julguei que lhe doíam as costas.
- Tudo o que restou dela é um singelo começo, uma memória, uma expressão «era uma vez». E desde a morte dessa grande ideia todos quantos começam uma outra começam com era uma vez, doutor, à espera que a sua seja a certa, tentando chamá-la, à procura. Mas eu acho, doutor, que nunca ninguém conseguiu lembrar-se dessa ideia, essa ideia que ninguém conseguiu salvar do abismo das outras coisas sempre iguais. Doutor.
- Você está bêbado?
- Dizem os médicos, diz você, doutor, que o álcool não pode trazer criatividade, que pelo contrário. Provoca no corpo uma libertação, doutor, que nos torna disponíveis e confiantes para criar. Tudo bem, doutor, doutor, aceito isso de estar bêbado, tudo bem, doutor, aceito, o doutor sabe que eu aceito. Aceito até, se o doutor quiser, que o Revolver, o Peppers, o Rubber... aceito, doutor, que teriam sido melhores se Lennon e McCartney estivessem sóbrios. Mas diga-me lá, doutor, você que não está bêbado, doutor, poderiam os Beatles ter sido melhores?
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